Meu violão modelo Eagle preto precisa de um polimento, para assentar o lustra-móveis e tirar o pó que ofusca o seu negrume. Ao buscar a flanela de algodão – sua superfície entrecortada pela ferrugem 0.9 D’Addario – me lembrei do episódio de hoje a noite. Conversava com outra garota num café noturno – sim, outra além da minha femme de madeira macia e acordoamento lustroso – enquanto ela lutava contra um saco de roupa. Uma azulada peça íntima saltava com a pressão exercida, talvez como um Sócrates que se esgueirava de debaixo de seu sudário, para omitir desejosas últimas palavras – no caso, possivelmente algo sobre intimidade e cumplicidade, algo de reforço. As duas imagens – a do soutien e a do anti-sofista – não se encontraram no momento exato. Ficaram a posteriori, visto que diverti-me por demasiado imensamente tanto com a metáfora quanto com o significante. Minutos antes de escrever isto, pra ser honesto.

Meu dia-a-dia soa doce, e o acorde sustentado de meu romance remete a um jazz (em tom maior, eu sei!) e à sábia puta de Cortázar: “If you ain’t got a dollar, gimme a lousy dime!”

É fato que sob o véu do cotidiano, bailam as curvas do surpreendente e do belo. Tudo o que é preciso é um senso aguçado. O caso de hoje: uma doce conversa com a To foi interrompida por um curioso pedinte, completo com a desculpa mais exótica e divertida que já ouvi. O homem dizia ser um correspondente indiano da CNN, que se perdeu ao fazer uma matéria aqui em terras brasileiras, e disse orgulhoso para nós “um dia eu ainda consigo” e fechava um pouco mais o paletó de algodão surrado, apanhado por uma repentina brisa.

Mais tarde, a cálida noite foi tomada pelo enebriante ar de um acordeon bufando Carlos Gardel, um tango roubado, pints e petiscos de milho e pimenta, destilados pela atmosfera abafada do Pub e por uma segunda, e igualmente divertida, conversa, desta vez com minha nobre irmãzinha adotiva. Bem, como podem supor, a prosa aqui é desnecessária. Afinal, colocando em termos de Jorge Luís Borges, esta noite sou o ser menos apto à literatura.

A débil luz do automotor batia em meu reflexo, do melhor jeito que luzes débeis de automotores podem fazer nestes tempos pós-modernos. Um misto de algum personagem azul de Picasso com o bom e velho Erik das profundezas da ópera de Paris – suas cavidades oculares abismos desumanos – se destacavam do negrume da noite fria de fora, e me comtemplava infantilmente, respondia simetricamente ao meu olhar, no péssimo hábito que os reflexos parecem ter ganhado do avã que recebem desde Dionísio e Adonis. O busto monocromático me agradava entretanto, embora minha mente estivesse diluída num certo enunciado em caixa alta.

Já meu estômago se lembrava. Ah, pois é este nobre orgão o maior responsável pela mnemônica – a mente presta serviços de courier, paperboy – justamente por que, embora soe um pouco adocicado, a caixa craniana não foi projetada para comportar qualquer espécie de borboleta. Lembrava. Lembrava da famosa cafeteria ht@#vacAmalhAda. Ao entrar no recinto, fui bombardeado por nomes próprios – creio que comi com o Assunção e o José, e mais um grupo de jovens, que abafaram seus nomes com um diálogo sobre um Calígula estúpido – efiges de caneta esferográfica (algo de você, Maga), mas nenhuma conversa soou nada além de débeis murmurinhos, por mais que eu me esforçasse. Um lugar de ouvir, mas nunca escutar, de ver e nunca observar. Eis onde decidi tomar meu café, lembrou bem o vôo das mariposas.

Eu temo. Temo que um dia as coisas belas da vida, sejam um sanduíche e uma xícara de chá em infusão nalgum canto da Pamplona, um belo sorriso ou algum pequeno cacoete de alguma garota (seus lábios de fato se movem vez ou outra para frente sob um nariz fino quando não estás a falar, Maga), sejam dispersas de seu encanto pela força esmagadora do cotidiano, do eterno retorno, do sucumbir frente aos impossíveis, a Homero e mil Ilíadas.

Temo isto. Isto e caranguejeiras. Já viste aquelas cretinas se esgueirarem pelo chão, com irregulares patas de ângulos góticos descrevendo um malicioso movimento anatômico, apenas para terminar dentro de um sapato esquecido? Senão, nem queira, meu amigo.

Nem queira: caranguejeiras, sapatos, lábios. Lábios, Homero, sanduíche.

Acordei ontem com minha cabeça lotada, além da constante menina dos olhos, de aforismos de Kuzinski e Chasin. O Capital Atrófico, resultante da via colonial, foi desfiar sua ascepção para se tornar um simples complemento, companheiro da dor muscular lascinante que havia sentido na panturrilha há algumas horas. Saí apressado de casa, em tempo do sol esgueirar-se pelas fendas carbonadas do céu.

Ao chegar ao ponto de troleibus, e depois de ajudar meu irmao a entrar com as bagagens da viagem no carro, notei que um senhor se prostava em direção a um detalhe no chão, e ao capturá-lo na pinça de dedos delgados, se deteu a olhar consideravelmente o pequeno objeto. “Olha, achei que fosse um centavo, mas deve ser de algum lugar do Japão”, disse inesperadamente, e com uma animação que atualmente apenas encontro em minha irmãzinha. Divertido com o diálogo, inclinei-me a olhar com profundidade e curiosidade juvenis a moeda enfeitada de monogramas que me lembraram mais um alfabeto mandarim: “Hm, creio que seja um Yan, a moeda japonesa tem um furo no meio…”.

Continuamos a conversa, e fiquei descobrindo que o senhor (que me lembra um misto de Dustin Hoffman e Clint Eastwood) colecionava em uma tira de couro uma diversidade de moedas. “Eu quero guardá-las para que meus filhos possam ficar com elas. Imagine, daqui a uns vinte anos, quanto elas estarão valendo?”

Pensei tudo isso enquanto quitávamos eu, o Jotapê e a Clarinha as contas da noite no Padabar. Eu pago três! e entregava o VR. Me despedi da mesa, apresentado às pressas a alguns novos camaradas, caminhei até a saída de forma inerte, e fui retirado da reflexão apenas por um sorriso cândido e um compassado “vamos, Maninho!”

Era já noite avançada. Avançado também o cair leve da madrugada úmida. Cobrindo eu e a minha nobre irmãzinha da chuva, o guarda-chuva pouco vacilava nas frias mãos de minha companheira e, em identico movimento, pouco vacilava minha cegueira cinza. Imagine, quão fatal a diferença entre estaturas. Indiferente da desvantajosa posição, ambos trocávamos alguns verbetes de nossas vidas (efêmeras, passageiras, ok! Mas também infinitamente belas). O soprar do dente-de-leão acompanhava nossos passos, que prosseguiam na proximidade exigida pela circunferência de minha cegueira cinza, que tornava a garota meu único ponto guia, minha estrita referência.

Oh! Como vivemos indiferentes, cegos ao presente, fantasmas no limbo entre o passado e suas quimeras, e o futuro e sua expectativa vacilante. E quanto mais negro se torna o passado, maior é o brilho que permeia as esperanças do futuro, e o contrário é válido, até mesmo mais. Todo o movimento guiado por madonas, vênus que tampouco sabem que enfiaram o maldito guarda-chuva de tal modo em nossos coletivos focinhos que só podemos ver do presente suas pegadas.

Porque não pedi para a maninha tirar o aparato da minha frente pouco tem a ver com cordialidade, um pouco mais a ver com afetos e sentimentos e um bocado mais a ver com a natureza escapista do humano. Do presente só as pegadas, flor de lítio, eu quero é ouvir algum diabo de história!

Olá, Coiotemaníacos! De volta ao Eu.@forismos para desenvolver uma pequena ponderação que me ocorreu hoje, e assim evitar que esta charmosa homepage, em todo seu esplendor verde oliva, “desfaleça”.

Hoje no metrô de volta para casa, enquanto estava enconstado contra a porta de metal frio que estava a se fechar, um chiclete estrategicamente plantado na borracha, que se aproximava do poliuretano oposto, num vão cada vez mais cerrado pelo movimento de adeus e nunca mais do trem, me fez pensar. Que simples alegria deve ter gerado os finos, frágeis e ousados fios de doce criando arcos cada vez mais amplos, quando o pequeno algoz viu as portas se abrirem em suas magníficas mandíbulas!

Tão importante nos é o jogo! Um conceito maior em importância que a própria cultura – afinal, mesmo os animais jogam – fico pensando em até que extensão eu o procuro. Fato é que o único ato lúdico de hoje – um amigável tapinha nos joelhos – não era nada mais, na verdade, do que um pedido de resolução de uma problemática acadêmica e sua natureza me deixou desanimado. Certo estou também que o jogo, as pequenas brincadeiras, sejam elas um quebra pau homérico, ou uma bossa nova em sol com sétima maior, são responsáveis por fazer de duas de minhas amigas verdadeiras irmãzinhas. Será que a inexistência de sorrisos sujos de chocolate, rabiscos na carteira, tornariam as coisas diferentes? O jogo, nalgum caso, também seria uma integrante parte da palpável – e diria esmagadora – ilusão romântica?

Eu, sinceramente, não sei.

Conforme se aproxima a data que comemora minhas duas décadas inteiras e, também, conforme crescem em mim as obrigações, contas à pagar, saldos bancários – magerrímos, ou, em termos da mãe de uma amiga, ELEGANTES – códigos de cartão de crédito e um minúsculo fogo fátuo que apenas posso imaginar ser algum tipo de ânsia paterna, me vejo encurralado por uma febril sensação de independência. Somos prisioneiros da liberdade – diga isso para minhas velhas roupas de baixo.

Fato é que o Dia da Mulher me surpreendeu empreendendo um esforço de mémoria, um apanhado das femmes que fizeram parte integrante de minha vida. Da mesma forma que sei que elas me moldaram, meu recém adquirido senso de maturidade também as moldou em minha mnemônica: conheci desde garotinhas, mulheres fatais, súcubos, intelectuais e indies, que acabam sendo pouco além de conceitos. Talvez numa tentativa de vitalizá-las por maior tempo, decidi cruzar cada uma das garotas mais especiais com um personagem da literatura (acho mesmo que funcionaria como um bom afrodisíaco): sendo assim, já conheci minha cota de Sabinas, Terezas, Kareninas, Weatherstones e mesmo uma Caulfield-fêmea. Ah! E por alguma razão a Mayra sempre me lembra os universos de Tom Sawyer.

Diria qualquer um dos leitores sensatos: deixe de ser prolixo e pedante, coiote! Uma música já basta para lembrar de algúem. Faz sentido, não é? Mas minha réplica é a seguinte: há sempre algo em jogo em relações humanas, e já sofri por mulheres, é um fato natural e disto apenas um idiota guardaria rancores. Mas prefiro perder um personagem, com o qual mesmo já podia ter lá minha antipatias, do que perder uma boa canção. E acreditem, meus amigos, há muito poucas canções para se dar ao luxo de sacrificá-las. Muito poucas!

Finalizando, parabéns a vocês, gatinhas, incógnitas de Einstein, para além da física quântica e da curvatura da luz!

Dedico o artigo de hoje à uma pequena reflexão, um protesto singelo, porém energético sobre o pensamento maniqueísta. Se há algo que a metafísica iluminista nos deixou de herança é o trabalho intenso em cima das dualidades: das trevas e da luz, do bem e do mal. É algo que acabamos mesmo por praticar no dia-a-dia, seja da atual situação da violência na metrópole paulistana, a questão dos morros cariocas ou mesmo em situações que não nos damos conta. Nos enraivecemos com um motorista que corta a faixa logo na frente de nossos carros, ou com alguma senhora que empaca a fila das gondôlas, ou de um casal despudoradamente se acariciando, e chegamos mesmo a pensar que eles planejam diabolicamente tais ações para perturbar nossa placidez. O mal subjulga o bem, a algazarra, a paz e a ordem, a desordem. Concordo que seja uma ótica bem atrativa, e vez ou outra isto me passa pela cabeça (principalmente no trânsito paulistano), mas sejamos honestos, é extremamente pouco pragmática. O contexto, meus caros! O contexto é de vital importância para que possamos apreender mais ricamente o que, em inicial análise, é o que os músicos do Jethro Tull resumiram bem como “all the little things that spoils my day”! O contexto é diverso para cada indivíduo e se considerarmos a vasta quantidade de possíveis cenários, teremos ainda maior números de possíveis condutas. Em termos simples: o que é certo para alguns não necessariamente se aplica a todos; o que parece uma péssima idéia para uns, é a única saída para outros. Deixar a coisa assim vai contra os príncipios objetivos do raciocínio e devo confessar que, quanto mais fundo se vai na reflexão sobre temas pesados e violentos, maior se torna a sensação de que de fato estamos mocinhos contra bandidos. Ah! Mas vá lá! Essa é uma saída simples para o abismo de Nietzsche. É negligenciar seu olhar negro e sua natureza vertiginosa.

Como um adendo, coloco para enriquecer a prosa o fato a seguir: há alguns dias se tornou um pouco claro para mim que uma certa garota (sua verdadeira identidade um segredo mesmo no divertido diálogo com minha irmã adotiva – esta que, nesses últimos tempos deixou de fazer meu sangue ferver apenas e substituiu por uma certa preocupação paterna minhas atitudes equivocadas e bobas. Diabos, eu de fato a trato como uma garotinha às vezes, embora, como a Maga de Cortázar, ela bem que me dá razões para tal!) AHAM! …Uma certa garota apresenta-se em diferentes facetas, das quais raramente posso intercalar vivências. Assim sendo, a garota 1 com quem passeei nalguma tarde não é a garota 2 com quem me encontro para uma conversa noturna e, tampouco, as duas se assemelham à onírica garota 3, que se introduz justamente em sua ausência. Amo igualmente as três. Suponho a partir disto que a singularidade, a linearidade de ações e condutas não é nada natural do humano, nem tampouco de seu espírito.

E assim vai meu cotidiano social, na doce e utópica ilusão de que minha disposição verbal objetive com sucesso minhas densas e complicadas excentricidades. Enquanto subo de forma rápida, energética e descuidada as escadarias da estação Jabaquara (um vício que alimento todo dia, visando atrofiar melâncolias e desânimos), deixo para trás uma ponta de inveja da poesia de Confúcio e da cultura Haikai. Estes malditos “verborrágicos”!

(Sim! O coiote adora até mesmo a mais patética demonstração de ironia descabida)

Esta última semana decidi voltar a rabiscar algo e me surpreendi com uma reflexão passageira. Resumo a prosa em uma sentença simples: o desenho não é um produto passivo. Desenvolvo, como qualquer empírico que nasce da vontade popular do esclarecimento, com o seguinte exemplo: todos os últimos três sketches dedicados ao Huxley começam com um olhar evasivo. Sim, e não havia notado a tendência até desenhá-lo desta última vez, novamente o olhar perdido e cansado como a primeira estrela do poente no papel Renault. O desenho, entretanto, prosseguiu de forma quase independente de mim, e logo ele estava sentado confortavelmente em meio a um café povoado, sorvendo deliciosamente de um pequeno post-it (um sorriso saltou, como um fantasma sob uma concha, da face desenhada) e de um whisky. Não me lembro desde quando ele começou a adotar hábitos abrasivos. O papo todo pode perfeitamente soar como loucura juvenil, mas tentem compreender que a criação de um personagem ( e eu pretendo sim escrever um livro/graphic novel/fanzine/backyard literature) envolve uma boa parcela de adoção: o personagem nada mais é do que uma cria que divide com você as experiências de sua vida e se utiliza de filtros semânticos completamente diversos, provenientes da raiz existencial pela qual ele surge. Talvez o Huxley nada mais seja que uma mescla entre Etienne e algum herói kafkiano, que viveu comigo boa parcela de meu cotidiano.

Vai saber…

Um pedinte me abordou perguntando se eu tinha CORAGEM de ajudá-lo, tive uma interessante aula sobre a natureza feminina com minha nobre amiga Hellen numa madrugada no laboratório. A Mayra, que dançara comigo sob o primeiro luar numa praia em Trindade me comprimentou como a um irmão já não mais tão distante e uma mulher não conseguira segurar o riso depois de ter terminado uma conversa por celular com um energético “Se liga babaca! Depois me dá um toque, seu idiota”.

E isto é tudo o que me moveu nos últimos dias.

Isto e uma bela película do Jean-Luc Godard… mas isto fica para uma próxima.

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