Era uma noite chuvosa, e relativamente encoberta pela solidão, coisa de se esperar – pode não parecer, mas sou um cara meio desapegado – e o que rondava minha mente era a ironia de ter que repetir o título Manual da paixão solitária um par de vezes a mais do que esperava para o atendente da livraria. Encomendas são encomendas. Enfim, me lembro de quase precisar fazer cada sílaba sibilar lentamente da minha língua, como quem saboreia um bonito nome feminino ou como um desses senhores que contabilizam por si só lentas lembranças de seu passado, apenas no intuito de fazê-las voltarem à vida.

Hójita, a repetição do nome me pareceu impregná-lo de mim, e me impregnar dele – mais ou menos como um jovem que decora a fórmula de Báskara depois de utilizá-lo ad nauseaum começa a apreendê-lo. Ops, desculpe, espere um pouco Maga…Sim… sim, este mesmo… Paixão solitária! O tipo de coisa, de emoção visceral sentido somente por uma das partes…Ahn?.. ah, ora o que tens na cabeça, não tem nada a ver com platonismo, meu amigo… é mais como amar e não saber bem o quê… ahn… não, não, isso não é pra mim. Quer saber, à merda com tudo isso, deixa isso aí na prateleira que eu vou ficar mesmo com O Senhor dos Anéis.

Estou prolífico no quesito literatura este fim de semana. Bolei toda uma cena de meu projeto, e creio que seria de bom grado lhes apresentar um trechinho sequer. Para contextualizar: este script de HQ está meio que pronto já há alguns meses, e a parte em questão se dá no fim do capítulo, com Huxley, o protagonista, saindo de mais uma missão bizarramente mal terminada. Um carro para em frente ao restaurante e o carrega pela noite.

Para quem se interessar, por favor, adoraria falar mais sobre a coisa toda. Por hora, fiquem com o monólogo da cena.

“Você olha da janela do sedan as luzes da cidade, que queimam em seu estômago como plácido cianureto. Tudo lá fora passa rápido, Rosa, todas as mentiras e a sensação sufocante de que tudo está impossivelmente fora do alcance, da calçada oposta, do clochard ao céu sem estrelas – observação imprópria, há tanta luz. Você para para lembrar do café e das torradas da manhã anterior, do silêncio, diálogo de Kaspar Hauser, aquilo que te mantém são, por um momento que for. O telefone celular está desligado, e uma ânsia lhe atravessa, alguém para lhe botar as mão na lapela do casaco e dizer algum impropério suave.

As luzes, a dança em Technicolor – certamente um continuum Tango argentino – soam como sombras neón da caverna de Platão. De tal forma que, quando os sons voltam a ti, sua própria voz se assemelha ao latir de um cachorro vira-lata. Você pede às pressas que o motorista pare o veículo lá mesmo, sem quase supor que é esta sua vontade. Sua cabeça lateja, e tudo o que você mais quer é o fim do passeio.

Rosa, as luzes da noite são tão lindas. Você precisa ver.”

Mas a vida não é apenas input and output, seu resumo não está apenas nas leis de ação e reação. Se nos engalfinhamos em meios para ser feliz, alcançar nosso kibbutz , ou dormir com paz de espiríto, ou com um afago morno, é justamente por que, em muitos casos, os resultados de nossas ações não são diretamente proporcionais àquilo que damos por ela. Nesse sentido – e principalmente no sentido do romance – o princípio da Teoria de Darwin vai ao chão: afinal “a sobrevivência do mais apto” subentende esforço. Veja só, correr sob a chuva te molha em proporcional quantidade se praticada fosse menor cinética, e não importa ser o mais galante, bonito, falar sempre as coisas certas, e às coisas erradas prestar um certo tom suave. Isso não dará certeza de conseguir a garota no final da noite, le mon’ chérie.

Longe de querer ser um bronco desencantado – e igualmente distante de ser um otimista – a vida deve ser assim, uma série de vicissitudes, de dificuldades e barreiras, e a incerteza de uma luz no fim do túnel. Oh, tudo é tão passageiro e vão, Maga, se no final não nos faz – sim, de nós dois, hójita – pessoas melhores, mais aptos a enfrentar mais vicissitudes – que acredite, sempre haverão. E nada disso depende do esforço, e sim de uma certa química, de um fluxo, um regaço amplo de acaso. Talvez coragem, disposição, vá lá saber.

(O ser que escreve ama metáforas. Isso se explica pela ânsia de passar uma mensagem sem querer passar pelo crivo do concreto e do claro e exemplifica, por si só, a deficiência da comunicação verbal frente à densidade do humano)

Era já o quarto embate entre o Marcelo, do departamento de arte, e a máquina em Street Fighter IV. Não sei porquê raios, não tive vontade de tirá-lo de lá. O novo embate terminava, o Marcelo dava um riso divertido, lamentava a derrota, e eu dizia: “Ora meu caro, é assim que são as coisas. Nínguem nunca aprendeu Street Fighter vencendo” dei uma palmada leve em seu ombro, puxei a minha cadeira e reiterei “bonitão, a próxima é minha!”. E de quem mais estiver disposto a jogar.

Falar o óbvio é de fato uma arte, não livre de ser capaz de mexer com algum intelecto desocupado. Whitehouse compara o presente à um crivo, que resume o denso mar de possibilidades do futuro em uma única linha de ação e História (Caminito que el tiempo ha borrado), aquilo que compreende o passado. No momento – no microsegundo que seja – realizamos ou somos obrigados a realizar escolhas, entre uma infinita possibilidade de cenários, ação que, por si só, desenha a linha da vida passada, pra sempre perdida da pluralidade de sentidos. (He venido por última vez / He venido a contarte me mal).

Uma maçada. A visão simplificada desta metáfora anula quaisquer metaficções que projetamos em nosso passado, toda a pequena fábula que se tornou nosso primeiro dia na escola, o épico do primeiro beijo, a sinfonia do “eu te amo” matinal (Bordeado de trébol y juncos en flor). Gosto de pensar na metáfora de Whitehouse como se a linha do tempo fosse um fluído, cuja matéria – a possibilidade – não se perde, apenas se transmuta (una sombra ya pronto serás / una sombra lo mismo que yo). Um vestigial que dirige nossa visão de nosso próprio passado, aliado à fraqueza de nossa própria memória e ao gosto eterno por boas estórias. Assim, heróis da resistência, atrás somente da própria subsistência, se tornaram mártires da democracia, e com eles a História ganhou um quê de esplêndido exercício mental. Não me demorarei muito, e logo chego a conclusão (caminito amigo / yo también me voy): sendo o futuro e o passado resultados do mesmo líquido, o que importa na verdade é o recipiente, o crivo do presente, o que dá forma a todo o resto, a plena exploração das possibilidades. Bendita seja a geração do “live strong and die young”.

Em segunda conclusão: quão essencial a idéia de liquidez! Quer dizer, já se acreditava que campos de força eram resultados de fluídos invisíveis, e mesmo que dadas emoções poderiam ser mapeadas através de diferentes composições químicas – algo de muito similar ao conceito tribal do Mana. Agora tudo se resume ao estímulo elétrico, à Hertz – da cor dos seus lábios à sensação do toque teu, Maga – à resposta e ação – output to an input, and then back again.

Input. Output. Pasos. La mano del tiempo.

Descia as escadas da estação gelada, apertando o casaco contra o peito, ouvindo sobre a curva de Mu e como ela provava que o café do futuro será acompanhada por torrada e nanomáquinas. Mas tudo o que realmente me captava no momento era quão abrasivo e agressivo se tornou a alvura destas máscaras higiênicas que se veêm por todo o lado, marcas do terror e histeria moderados – por dieu… – e de uma súbita preocupação minha (Maga, tu acertas sempre em sua intuição felina, uma virtude às vezes tão desconcertante).

Ni hace sus cuerdas sonar.

Meu violão modelo Eagle preto precisa de um polimento, para assentar o lustra-móveis e tirar o pó que ofusca o seu negrume. Ao buscar a flanela de algodão – sua superfície entrecortada pela ferrugem 0.9 D’Addario – me lembrei do episódio de hoje a noite. Conversava com outra garota num café noturno – sim, outra além da minha femme de madeira macia e acordoamento lustroso – enquanto ela lutava contra um saco de roupa. Uma azulada peça íntima saltava com a pressão exercida, talvez como um Sócrates que se esgueirava de debaixo de seu sudário, para omitir desejosas últimas palavras – no caso, possivelmente algo sobre intimidade e cumplicidade, algo de reforço. As duas imagens – a do soutien e a do anti-sofista – não se encontraram no momento exato. Ficaram a posteriori, visto que diverti-me por demasiado imensamente tanto com a metáfora quanto com o significante. Minutos antes de escrever isto, pra ser honesto.

Meu dia-a-dia soa doce, e o acorde sustentado de meu romance remete a um jazz (em tom maior, eu sei!) e à sábia puta de Cortázar: “If you ain’t got a dollar, gimme a lousy dime!”

É fato que sob o véu do cotidiano, bailam as curvas do surpreendente e do belo. Tudo o que é preciso é um senso aguçado. O caso de hoje: uma doce conversa com a To foi interrompida por um curioso pedinte, completo com a desculpa mais exótica e divertida que já ouvi. O homem dizia ser um correspondente indiano da CNN, que se perdeu ao fazer uma matéria aqui em terras brasileiras, e disse orgulhoso para nós “um dia eu ainda consigo” e fechava um pouco mais o paletó de algodão surrado, apanhado por uma repentina brisa.

Mais tarde, a cálida noite foi tomada pelo enebriante ar de um acordeon bufando Carlos Gardel, um tango roubado, pints e petiscos de milho e pimenta, destilados pela atmosfera abafada do Pub e por uma segunda, e igualmente divertida, conversa, desta vez com minha nobre irmãzinha adotiva. Bem, como podem supor, a prosa aqui é desnecessária. Afinal, colocando em termos de Jorge Luís Borges, esta noite sou o ser menos apto à literatura.

A débil luz do automotor batia em meu reflexo, do melhor jeito que luzes débeis de automotores podem fazer nestes tempos pós-modernos. Um misto de algum personagem azul de Picasso com o bom e velho Erik das profundezas da ópera de Paris – suas cavidades oculares abismos desumanos – se destacavam do negrume da noite fria de fora, e me comtemplava infantilmente, respondia simetricamente ao meu olhar, no péssimo hábito que os reflexos parecem ter ganhado do avã que recebem desde Dionísio e Adonis. O busto monocromático me agradava entretanto, embora minha mente estivesse diluída num certo enunciado em caixa alta.

Já meu estômago se lembrava. Ah, pois é este nobre orgão o maior responsável pela mnemônica – a mente presta serviços de courier, paperboy – justamente por que, embora soe um pouco adocicado, a caixa craniana não foi projetada para comportar qualquer espécie de borboleta. Lembrava. Lembrava da famosa cafeteria ht@#vacAmalhAda. Ao entrar no recinto, fui bombardeado por nomes próprios – creio que comi com o Assunção e o José, e mais um grupo de jovens, que abafaram seus nomes com um diálogo sobre um Calígula estúpido – efiges de caneta esferográfica (algo de você, Maga), mas nenhuma conversa soou nada além de débeis murmurinhos, por mais que eu me esforçasse. Um lugar de ouvir, mas nunca escutar, de ver e nunca observar. Eis onde decidi tomar meu café, lembrou bem o vôo das mariposas.

Eu temo. Temo que um dia as coisas belas da vida, sejam um sanduíche e uma xícara de chá em infusão nalgum canto da Pamplona, um belo sorriso ou algum pequeno cacoete de alguma garota (seus lábios de fato se movem vez ou outra para frente sob um nariz fino quando não estás a falar, Maga), sejam dispersas de seu encanto pela força esmagadora do cotidiano, do eterno retorno, do sucumbir frente aos impossíveis, a Homero e mil Ilíadas.

Temo isto. Isto e caranguejeiras. Já viste aquelas cretinas se esgueirarem pelo chão, com irregulares patas de ângulos góticos descrevendo um malicioso movimento anatômico, apenas para terminar dentro de um sapato esquecido? Senão, nem queira, meu amigo.

Nem queira: caranguejeiras, sapatos, lábios. Lábios, Homero, sanduíche.

Acordei ontem com minha cabeça lotada, além da constante menina dos olhos, de aforismos de Kuzinski e Chasin. O Capital Atrófico, resultante da via colonial, foi desfiar sua ascepção para se tornar um simples complemento, companheiro da dor muscular lascinante que havia sentido na panturrilha há algumas horas. Saí apressado de casa, em tempo do sol esgueirar-se pelas fendas carbonadas do céu.

Ao chegar ao ponto de troleibus, e depois de ajudar meu irmao a entrar com as bagagens da viagem no carro, notei que um senhor se prostava em direção a um detalhe no chão, e ao capturá-lo na pinça de dedos delgados, se deteu a olhar consideravelmente o pequeno objeto. “Olha, achei que fosse um centavo, mas deve ser de algum lugar do Japão”, disse inesperadamente, e com uma animação que atualmente apenas encontro em minha irmãzinha. Divertido com o diálogo, inclinei-me a olhar com profundidade e curiosidade juvenis a moeda enfeitada de monogramas que me lembraram mais um alfabeto mandarim: “Hm, creio que seja um Yan, a moeda japonesa tem um furo no meio…”.

Continuamos a conversa, e fiquei descobrindo que o senhor (que me lembra um misto de Dustin Hoffman e Clint Eastwood) colecionava em uma tira de couro uma diversidade de moedas. “Eu quero guardá-las para que meus filhos possam ficar com elas. Imagine, daqui a uns vinte anos, quanto elas estarão valendo?”

Pensei tudo isso enquanto quitávamos eu, o Jotapê e a Clarinha as contas da noite no Padabar. Eu pago três! e entregava o VR. Me despedi da mesa, apresentado às pressas a alguns novos camaradas, caminhei até a saída de forma inerte, e fui retirado da reflexão apenas por um sorriso cândido e um compassado “vamos, Maninho!”

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