Esta última semana decidi voltar a rabiscar algo e me surpreendi com uma reflexão passageira. Resumo a prosa em uma sentença simples: o desenho não é um produto passivo. Desenvolvo, como qualquer empírico que nasce da vontade popular do esclarecimento, com o seguinte exemplo: todos os últimos três sketches dedicados ao Huxley começam com um olhar evasivo. Sim, e não havia notado a tendência até desenhá-lo desta última vez, novamente o olhar perdido e cansado como a primeira estrela do poente no papel Renault. O desenho, entretanto, prosseguiu de forma quase independente de mim, e logo ele estava sentado confortavelmente em meio a um café povoado, sorvendo deliciosamente de um pequeno post-it (um sorriso saltou, como um fantasma sob uma concha, da face desenhada) e de um whisky. Não me lembro desde quando ele começou a adotar hábitos abrasivos. O papo todo pode perfeitamente soar como loucura juvenil, mas tentem compreender que a criação de um personagem ( e eu pretendo sim escrever um livro/graphic novel/fanzine/backyard literature) envolve uma boa parcela de adoção: o personagem nada mais é do que uma cria que divide com você as experiências de sua vida e se utiliza de filtros semânticos completamente diversos, provenientes da raiz existencial pela qual ele surge. Talvez o Huxley nada mais seja que uma mescla entre Etienne e algum herói kafkiano, que viveu comigo boa parcela de meu cotidiano.
Vai saber…
Um pedinte me abordou perguntando se eu tinha CORAGEM de ajudá-lo, tive uma interessante aula sobre a natureza feminina com minha nobre amiga Hellen numa madrugada no laboratório. A Mayra, que dançara comigo sob o primeiro luar numa praia em Trindade me comprimentou como a um irmão já não mais tão distante e uma mulher não conseguira segurar o riso depois de ter terminado uma conversa por celular com um energético “Se liga babaca! Depois me dá um toque, seu idiota”.
E isto é tudo o que me moveu nos últimos dias.
Isto e uma bela película do Jean-Luc Godard… mas isto fica para uma próxima.