Estou prolífico no quesito literatura este fim de semana. Bolei toda uma cena de meu projeto, e creio que seria de bom grado lhes apresentar um trechinho sequer. Para contextualizar: este script de HQ está meio que pronto já há alguns meses, e a parte em questão se dá no fim do capítulo, com Huxley, o protagonista, saindo de mais uma missão bizarramente mal terminada. Um carro para em frente ao restaurante e o carrega pela noite.
Para quem se interessar, por favor, adoraria falar mais sobre a coisa toda. Por hora, fiquem com o monólogo da cena.
“Você olha da janela do sedan as luzes da cidade, que queimam em seu estômago como plácido cianureto. Tudo lá fora passa rápido, Rosa, todas as mentiras e a sensação sufocante de que tudo está impossivelmente fora do alcance, da calçada oposta, do clochard ao céu sem estrelas – observação imprópria, há tanta luz. Você para para lembrar do café e das torradas da manhã anterior, do silêncio, diálogo de Kaspar Hauser, aquilo que te mantém são, por um momento que for. O telefone celular está desligado, e uma ânsia lhe atravessa, alguém para lhe botar as mão na lapela do casaco e dizer algum impropério suave.
As luzes, a dança em Technicolor – certamente um continuum Tango argentino – soam como sombras neón da caverna de Platão. De tal forma que, quando os sons voltam a ti, sua própria voz se assemelha ao latir de um cachorro vira-lata. Você pede às pressas que o motorista pare o veículo lá mesmo, sem quase supor que é esta sua vontade. Sua cabeça lateja, e tudo o que você mais quer é o fim do passeio.
Rosa, as luzes da noite são tão lindas. Você precisa ver.”