Fui ao banheiro da estação colocar um pouco de água no rosto, massageando as têmporas contra as cavidades ósseas de forma repetida e demorada em um gesto muito menos higiênico e muito mais existencial. Sentir o tutano debaixo da pele, a vida pulsante que habita a visão, o mastigar, o palato, firme e forte até na ironia da impossibilidade. Quando tirei do rosto as mãos enrugadas pela água, me surpreendi estranhamente sujo. Não de forma gritante, apenas umas manchas aqui e ali, a barba crescendo molenga onde antes nada germinava, algumas marcas ruborizadas, nada demais. Ainda assim, me lembrava de estar um pouco mais limpo e uniforme até então, uma sensação difícil de se desapegar. A falta de um repertório intelectual digno para me apartar no momento foi de certa forma desconcertante. Talvez se fosse uma mulher, me viria à cabeça um inventário de cremes, loções, Dédalo em pomadas aromatizadas, e uma ou outra dica infalível. Sendo o velho coiote como ele é, me diverti pensando que talvez aquilo fosse muito parecido com uma rua asfaltada logo depois da chuva: a superfície ganhando suaves tons de cerúleo contra a recente luz solar, tornando ainda mais azulada a manhã. Assim também a melhor coisa que podia dizer pro meu reflexo no momento é que há algo de uma nova matiz, de uma nova tonalidade. E da baixeza de meus 21 anos, estou percebendo o tempo, o lento degenerar das coisas, a pequena morte cotidiana que nos faz mais e mais humanos na medida em que ceifa parte de nosso charme e juventude. Em um banheiro de estação.
Mas não posso me dar ao luxo de perder o charme. Isso é se desequipar frente ao meu próprio impossível. De forma instintiva ainda. Esse perder instrumental é um processo lento (talvez a motivação secreta por trás da criação dos tantos samurais cegos, pernetas ou manetas em filmes japoneses) mas dolorosamente contínuo. Para o hoje, o ontem é algo alienígena. O que ficou ontem ficou, e nada disso vai garantir o agora: a humanidade em seu princípio, é de uma intensa atualidade. Colecionar bons momentos, diferente de minhas crenças passadas, é muito próximo a sorver um veneno cuja passagem gera um comichão divertido na garganta, sua efervescência escondendo atrás de si a realidade da passagem do tempo. Maus necessários.
E é por isso que vivemos trocando meios por fins e fins por coisa alguma. No fim das contas, tudo o que apreendemos de nossos erros vem da jornada de repetí-los: eis o berço do sentido. E é essa personificação que terá que bastar agora. Mas talvez eu esteja sendo muito duro, Maga, one old sneaky bastard. Muito duro, e muito pessimista – as suas palavras seriam uma sigla nesse momento. Mas amanhã passa. Há de passar, não é?