Uau, faz um tempão que não atualizo nada aqui – como bem apontou a caríssima Andrea W. e mais outras dezenas de pessoas, possivelmente em maior número do que minha audiência jamais sonhou em alcançar. Mas não tenho negócio nenhum com os “desvaneios” dos números. Deixe a prosa para lá.

Para não dizer que eu não subi nada, decidi colocar na íntegra um texto que escrevi para as aulas de Técnicas de Redação que tenho religiosamente toda sexta na Cásper Líbero. Entre suas mil histórias – algo típico de um professor em sua posição – o sr. Welington uma vez nos disse com seu costumeiro estilo meio teatral demais como todo aluno que tirava oito para cima em suas avaliações acabaram nas redações de Piauís, Caros Amigos e Cartas Capitais. Esse é meu segundo “nota 10″ consecutivo.

Nada mais digno senão publicar, certo?

“Sua pele como o milenar calcário, rugosa e ferida de flanco a flanco por um fino e irregular sulco, a imensa árvore se estende para muito além das bordas cinzentas da fotografia, dando à sua fisionomia algo de infinito, imemorial, como uma estátua erguida por titãs. A natureza se faz presente e a abraça com uma densa flora, de folhas, ramos e húmus. É um esforço perdido, e ela compreende em seu cerne um doce fracasso. Resume-se então a coroar o áspero gigante com galhos mil, cuidadosa na circunferência de seu berço descomunal. A coisa toda, lhe pareceu, era um sparring surdo-mudo entre dois pugilistas desiguais: o ‘verde’, que cerca impotente seu adversário, e a árvore, segura de seu lugar, de seu xeque-mate passivo e eternamente incompleto.
A mulher lhe apareceu com sua roupa dominical, o cabelo penteado por igual, curto sob o chapéu branco. Sua pose estática transmitia um pouco de impassividade: as mãos firmes em sua pequena bagagem, os joelhos virados para dentro, o rosto observando qualquer coisa fora da fotografia com um sorriso mal ensaiado. E ainda assim lhe parece que era como se ela estivesse lá o tempo todo. Ela, o vestido dominical, o sorriso fugidio, os joelhos. Plantados como estavam também a fofa relva e a nodosa árvore. Coisas de uma só coisa, prisioneiros do espaço, mas não do tempo. A luz dá a dica: o arranjo preto-e-branco se originou de uma tarde morna, os raios de sol compondo um todo branco a emoldurar suas personagens, não sem sua textura própria. O céu se confunde com as copas e adentra o tronco enorme como um leitoso miasma, cortado aqui e ali pela sombra de outros ramos, que incidem na pele do gigante e servem como único indício de que há todo um mundo para além dos limites da imagem. Isso e o olhar da mulher, mas até aí é a mesma coisa. Diabos! Pensou que, em resumo, não era nada que não lembrasse a borra velha de um café marroquino, cujos signos estão espalhados a olhos vistos, como um Rorscharch nu.”