“Você vai até São Bernardo?”. A pergunta tirou minha cabeça dos desvaneios de como a maldita noite estava quente, e os meus olhos de um volume de Dubliners, do James Joyce, direto para o rosto de um senhor com um semblante claramente perturbado e com uma bagagem quase que descomunal em seus braços. “Vou… vou sim” respondi. O homem me deixou a par de que precisava de direções para uma das estações do corredor metropolitano, e a sua insistência me pareceu apontar um caso de mente um pouco fraca – o que não é qualquer coisa próxima de ruim no meu caso, ando tão desinteressado em pura sanidade. “Sente aí”, recomendei, “que logo vou te avisar quando chegarmos, pode ficar tranquilo”. O senhor se recostou em um assento logo de costas para o meu e, como se voltasse meus olhos para minha leitura, fiquei pensando se o homem não teria insistido em sua dúvida por mera necessidade de atenção. Conversamos de forma breve, mas não tardou até um grupo barulhento de jovens tomarem assento ao redor do viajante. Tomei aquilo como um adeus improvisado e mal pude evitar um riso irônico quando ele logo deixou a trupe verborrágica ciente da dúvida de seu destinatário. Mas o mais doce foi ver como logo eles estavam conversando sobre comidas caipiras, trocando endereços e se tratando como amigos de longa data, aqueles meros estranhos. Aquela droga de salto geracional tornado inerte.

Aquela explosão de humanidade me tirou por um instante que seja da vileza que sinto vez ou outra tomar rédeas da minha vida: as necessidades de um assalariado – sempre mais -, mas principalmente meus entraves românticos impossíveis. Assisti pela janela a noite passar “and in the darkness, I saw myself as a creature driven and derided by vanity” (frase de um conto de Joyce). E ainda assim de todo aquele visco cruel, havia uma chama dessas que nunca anseiam atear o mundo às brasas. Seu bailar diminuto apenas mostrou uma realidade simples, doce e um pouco desesperadora: minha alma tem uma sombra.

(o trecho é uma paráfrase de um poema beatnik que guardei na memória; ando pouco criativo estes dias).

O desespero, poderosa força motora intrínseca de qualquer experiência de existir. O que me deixa inquieto é que por vezes eu sinto medo. De que tudo vá acabar um dia sem jamais ter começado. De novo. E o medo me deixa surpreso. Mas sabe como é, quando você conversa com alguém e descobre que explorar seus segredos é tanto aprender sobre ela quanto descobrir você mesmo, e que aquilo parece um enebriante carrossel de coincidências, e que o amor é químico e nada mais. É maravilhoso. Mesmo que ligeiramente fársico. Até porque ligeiramente fársico?

Trabalho? Faculdade? Ora, Maga, eles vão bem, mas não dão bom caldo pra histórias. Falta-lhes algo de clímax, de um bom ritmo narrativo. Afinal você se diverte quando eu externalizo, coisa que me deixa quase tão desconfortável quanto ser obtuso, mas necessidades são necessidades, e tudo acaba em boas risadas mesmo. Só porque você está certa, não significa que eu esteja errado, não é?

Mas venha aqui. A nossa música está quase terminando, Maga, que tal dançar um pouco?