Todas as pessoas vão te dizer que você tem que se organizar na vida, se preparar, se assegurar. Foi parte das preocupações de uma cara amiga minha e algo que me fez parar pra pensar: o ato de viver, pra todos os efeitos, é uma progressão em desorganização. Como bem apontou Mutarelli em seu genial texto “O Astronauta”, vivemos em uma rota que já começou: o que está ali traçado é nossa única ligação com o sólido, o que virá a ser traçado naturalmente desvirtuará o que irá passar, de uma maneira ou de outra. Nada é uma mera linha reta, já diria a física contemporânea. O que aconteceu na semana passada é uma narrativa linear, cheio de fatos cuja única obscuridade vem do fato de você lembrar ou não lembrar, porque eles estão lá de fato, intocáveis em sua concretude. O que acontecer de agora em diante (“agora”, que palavra fugidia esta) está passível de toda sorte de desvios e contratempos. O porvir é, em sua natureza, desorganizado. Líquido, se me permitir uma liberdade semântica. E aqui estamos, o homem moderno adorador da imagem, das fotos que fazem tudo parecer atemporal, como tivesse sido colocado lá por Apolo desde os tempos mais remotos, ou antes disso. E um leve ressoar em nossa mente, que nos instiga a revisitar sensações já passadas, ignorando com ar de criança que, meu caro, “os tempos são outros”. Desde há um milésimo de segundo. Desorganizado.

Encarando essa verdade, há duas saídas possíveis (foi o que o blues de domingo á noite me deixou raciocinar, dê-me um desconto). A primeira é colecionar e se agarrar aos bons momentos passados como se fossem jóias – suas preciosidades apenas artifício de um sistema – para depois se sufocar com elas no eterno dissipar das coisas. Cada um escolhe seu veneno. Pessoalmente o meu escolhido é a segunda saída: sabendo que o que é agora já se foi, irremediavelmente, tudo o que sobra é o conflito do porvir. “Amanhã vai ser diferente” por bem ou por mal, e o que me cabe é encarar e dizer entre os dentes: “manda ver!”. Não teria muita graça se não fosse assim. Em última consideração, jamais tema esperar uma segunda chance:o futuro não conhece limites.

Eu deveria escrever um livro de auto-ajuda, Maga, um destes com um título cativante e nenhuma boa nota de rodapé e uma segunda introdução pra cada nova edição e talvez alguma dedicatória babaca a ti. Conseguiria uma grana, bancaria um lugarzinho, uma viagem para a Toscana ou para ver as igrejas de Gaudí em sua etérea companhia. Deixe-me ser irônico por um momento, isso não importa, nunca importou. Mas vem cá: não é engraçado pensar que, de certa forma, esperamos o que já se passou?