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Era uma noite chuvosa, e relativamente encoberta pela solidão, coisa de se esperar – pode não parecer, mas sou um cara meio desapegado – e o que rondava minha mente era a ironia de ter que repetir o título Manual da paixão solitária um par de vezes a mais do que esperava para o atendente da livraria. Encomendas são encomendas. Enfim, me lembro de quase precisar fazer cada sílaba sibilar lentamente da minha língua, como quem saboreia um bonito nome feminino ou como um desses senhores que contabilizam por si só lentas lembranças de seu passado, apenas no intuito de fazê-las voltarem à vida.

Hójita, a repetição do nome me pareceu impregná-lo de mim, e me impregnar dele – mais ou menos como um jovem que decora a fórmula de Báskara depois de utilizá-lo ad nauseaum começa a apreendê-lo. Ops, desculpe, espere um pouco Maga…Sim… sim, este mesmo… Paixão solitária! O tipo de coisa, de emoção visceral sentido somente por uma das partes…Ahn?.. ah, ora o que tens na cabeça, não tem nada a ver com platonismo, meu amigo… é mais como amar e não saber bem o quê… ahn… não, não, isso não é pra mim. Quer saber, à merda com tudo isso, deixa isso aí na prateleira que eu vou ficar mesmo com O Senhor dos Anéis.

É fato que sob o véu do cotidiano, bailam as curvas do surpreendente e do belo. Tudo o que é preciso é um senso aguçado. O caso de hoje: uma doce conversa com a To foi interrompida por um curioso pedinte, completo com a desculpa mais exótica e divertida que já ouvi. O homem dizia ser um correspondente indiano da CNN, que se perdeu ao fazer uma matéria aqui em terras brasileiras, e disse orgulhoso para nós “um dia eu ainda consigo” e fechava um pouco mais o paletó de algodão surrado, apanhado por uma repentina brisa.

Mais tarde, a cálida noite foi tomada pelo enebriante ar de um acordeon bufando Carlos Gardel, um tango roubado, pints e petiscos de milho e pimenta, destilados pela atmosfera abafada do Pub e por uma segunda, e igualmente divertida, conversa, desta vez com minha nobre irmãzinha adotiva. Bem, como podem supor, a prosa aqui é desnecessária. Afinal, colocando em termos de Jorge Luís Borges, esta noite sou o ser menos apto à literatura.

Sair de casa às 19:00, com o céu carbonizado de cinza e umidade é quase como um thriller. As árvores ainda em flor, tão típicas do início do verão, despejam pesadas pétalas que, para o olhar incerto, se assemelham a gotas desajeitadas. Nossa! Que aguaceiro! Erro novamente: é sim a mulher do outro lado da rua regando o jardim escasso com seus shorts juvenis. Ora, todo bom filme de terror tem que ter suas exuberâncias femininas. Assim também, todo bom thriller tem que construir o suspense e a tensão até níveis insuportáveis, deixando a visão da criatura ou do assassino para o final do terceiro ato e, consequentemente, do filme. Assim também me ocorreu, e assim como procede com o perturbado herói da película, o monstro líquido me dá um misto de assombro e solidariedade, e portanto corro para a senhora lá na frente . “Quer ajuda?”, pergunto com estranha calma (como a calculista atitude dos quase abstratos protagonistas). “Não, meu filho! Eu moro longe” e com um gesto, afastou meu guarda-chuva, negro como o corvo de Morfeu. Bem, não imagino que eu tenha o direito de negar a uma idosa alguma ânsia aventureira e, além do quê, o meu escasso tempo me obriga a correr para o conservatório. Tudo bem, precisava de um pouco de movimento no meu dia. Let’s split!

A volta me presenteou com um tempo mais seco e um interessante diálogo com um amigo músico e o bandolim. Bandolins não falam, mas têm histórias, e a deste era ser de um cara que fez de seu ganha-pão algo de que ele gosta. O ritmo acelerado de apresentações e aulas pareceu desprender de sua fala algum tipo de ânimo, e entre os “cacete, tenho que estar em Sampa às nove e porrada” e os “puta loucura” notei a existência de uma cinética que lhe é como uma segunda vida… ou um segundo meio de vivê-la, além das efemérides de um cotidiano comum. Assim como o rapaz que adentra  alguma sala de cinema espera dos sustos a possibilidade de experimentar algum tipo de adrenalina, sem sofrer dela o que se esperaria de uma situação real, meu amigo vive e sofre por seu trabalho, cuja propria natureza evita, de fato, demasiadas dores.

Não imaginem, claro, que esse homem não sofra. Todos sofremos, em maior ou menor grau e em uma miríade de formas. Afinal, como ia dizendo, sair de casa às 19:00, com um céu carbonizado de cinza e umidade…

Toda essa questão sobre a memória me faz crer que um homem jamais deve viver sem seus castelos, e me deixa, assim, em algum tipo de paz interna com minha quimera. Enquanto tomava mais um gole de café na cozinha, minha mão se desvinculava da caneca rubra e esbarrava no power de algum televisor. No equívoco, fui recebido pela fábula triste (entretanto fantasiada com aspas felizes e músicas agitadas) de algumas garotas de um núcleo elitizado da capital do Rio de Janeiro. A apresentadora as acompanhava a um banho de loja e as pobres garotas (de nove a onze anos) esbanjavam preocupações sobre linhas de seda ou o caimento de t-shirts de algodão, com um timbre moderno que deixaria Yves Saint-Lourant inquieto.

Não consegui acompanhar muito mais daquilo. Não apenas por ser alguma espécie de bruto machista ou coisa que valha, mas por pura questão de pena: o que será da felicidade dessas meninas no futuro, que tipo de pessoas serão? As cabeças vinculadas a valores de capital utilitários, as preocupações com o puramente concreto, com o que é visto sem ser observado. Imannuel Kant, por mais chato que fosse, já deixava claro a diferença entre o real e a compreensão do real, onde, imagino, se manifesta o lúdico, a fantasia. Fantasia essa proveniente não só de um conjuntinho fashion, mas de peças de montar, videogames 8-bit, livros, miniaturas, bonecos e bonecas e arlequins saltitantes, cachorrinhos de madeira empurrados por engenhocas de molas e fios, tudo aquilo que incitou nossa infância e nos remete a nossas primaveras e que, finalmente, nos possibilita driblar as dificuldades do puramente concreto.

Não incito nínguem aqui a alienação, mas gostaria de pensar que possamos ter um apreensão mais ampla do que nos cerca e de nossa própria imagem através de um pensamento disposto à criatividade lúdica e à curiosidade, ministrado por estes professores de armaduras negras, chapéus de asa de corvo e metais imantados.

“Rolling Stones – You Can’t Always Get What You Want”

“Não há nada mais âmbiguo que nossas memórias”. A anedota me pareceu cabível: embora eu conte com uma míriade de itens que me recordam os fantasmas de meu passado (que, ironicamente, se compõe exclusivamente do sexo feminino) não posso dizer que a ordem e as redes significantes que se formam não se agrupam por força de uma vontade maior. Talvez aquela que reorganiza tudo em uma narrativa de fácil aceitação, aquela mesma que cria pantheons de conforto existencial em figuras mitológicas.

Claro, botas de cano alto me lembram uma certa garota de jeans claros e casacos “planet girls”, enquanto sobreposições curtas e “boy bands” me lembram uma segunda, cuja compreensão por vezes me foge, vitimada novamente pelas mitologias do nosso sub-consciente. Uma terceira, ainda, me lembra de corpetes escuras, um jab de direita dolorosa, um aniversário numa Vitrine que, ao menos daquela vez me deixou de bom humor (gracias, Mi!) e ,enfim, que dei a ela fatalmente (leia-se: esqueci de escanear) um desenho meu de presente.  Mas há casos um pouco mais complicados. Um em especial: a garota das botas me vem a mente, num sobressalto de sinapses e na revoluçao de íons, também sempre que sinto o cheiro de bolo de cenoura. Ressalto que, em uma época em que meu regime se manteve o mesmo no geral, nunca dividi com ela qualquer espécie de bolo de cenoura (música dramática!). São nossa quimeras capazes de devorar nossa memória a par de uma melhor semântica? É possível que construamos relações baseadas em ilusões fantasmagóricas? Isso sequer faz qualquer sentido?!

Enfim, de repente me sinto um bocado assustado com todo esse lance de “comunicação em redes”

“Iron Maiden – Hocus Pocus”

Algumas frases soltas de conversas soltas:

“Você tá viajando demais, cara!” (Celso em uma conversa na linha azul)

“Tu não tá com muita sorte hoje.” (Moça da tesouraria)

“Se você morre nas redes virtuais, morre também na vida real.” (Sérgio Amadeu)

“Ai Leo, me acorda quando der logoff…” (Clara Camargo, recostada em um terminal do meu lado)

Está aí um resumo pouco literal e tampouco fielmente cronológico de minha quinta-feira.

Isso e o tempo seco e agradável.

“Justice – Dance”

Engraçado como meu dia acaba em tantas ponderações que por vezes esqueço a riqueza que compreende as tardes e noites de eternos retornos num parâmetro mais ocular. O homem do semáforo pintou novos verbetes na cartolina, mas não os li. Por entre o brêu dos túneis em alta velocidade, edificados sob as necessidades de tantos homens e de tanto atrevimento, um trem passa, sua aceleração o transformando em um leviatã etéreo, que dispara por entre as colunas de cimento e, logo após, some, como um fantasma que acabava de ser exorcizado de minha vista. A chuva no vidro do retorno me colocava a par de algumas memórias.

Interessante também como a gente encara as vicissitudes quando de bom humor e de garganta vazia: me lembrei, sob o aguaçeiro, de uma garoa que eu tomei num fim de tarde com meu pai, caminhando por copacabana (o velho adora caminhadas vespertinas), vigiados por um céu azul claro que vinha a se confundir na pele dos banhistas e do horizonte e por um silêncio entrecortado por alguma conversa. Acho que nunca falamos algo muito impactante ou mesmo memorável um para o outro, mas um momento é o bastante para imortalizar alguém e um dia basta para resumir a vida de um grande homem.

“Trans Siberian Orchestra – The Moment”

Sentado no banco já desocupado de calor humano sob o frio glacial. Lá fora, um destacamento de edifícios, edificações e esfinges. Todos devidamente deflorados por torrentes pegajosas e belas de aerossois multicolores. Palimpsestos. Rosas em capotes alemães. Lírios recostados ao cano de fuzis Mosin-Nagant. Meu espírito externado. Chovia. Uma revista, dividida desconfortavelmente por duas garotas, colegiais pelo que pude destacar, me demonstrava, na metade de sua face, um anúncio: “7 posições para chegar Lá”. Lá. Lá, onde todos querem alcançar: poetas, escritores, músicos (la la la) e afins. Lá me lembra a conversa de minutos atrás. Lá, dividindo uma mesa de fast-food com as garotas (todas atualmente sob os infortúnios de amores e desapegos), discutimos o perigoso tema do amor. Não nos apaixonamos pelos defeitos, como dizem, mas nem por isso eles não tem importância. Imagino que eles fazem parte de uma transição, uma fase de brutal importância, que, ainda assim não leva a muita coisa. Afinal, muita coisa nunca foi a questão do amor, quando tampouco é a felicidade.

Pensei na srta. Atorama (Sim, VOCÊ), e agradeço ao menos ter conhecido apenas as quimeras de minhas paixões até ter de desapegar delas. Chovia, e tudo o que eu queria era um café preto. Negro como toda danação, amargo como um beijo teu. E só.

“Radiohead – Paranoid Android”

Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Eu seus papiros Papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
Displicentemente o nervo se contrai
Ô, ô, ô, ô, com precisão!

Nos aviões que vomitavam pára-quedas
Nas casamatas, casas vivas caso morras
E nos delírios, meus grilos temer
O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento
Como um passatempo quero mais te ver
Ô, ô, ô, ô, com aflição!

Zé Ramalho - Vila do Sossego

Estava justamente a tirar alguns acordes dessa canção antes de começar meu Gabriel García Márquez quando fui atingido por uma imagem, um lampejo típico das personagens de Clarice Linspector. Vi uma moça de um longo vestido preto, um tomara-que-caia cujas belas curvas, emprestadas da dama em questão, tremiam sob a influência de um doce arranjo tonal vindo de meu violão, nós dois e um palco escuro e só. Me pareceu por um momento um resumo impactante de minha raisón d’ etre ou, ao menos, uma distração muito cara e viva para se negligenciar. Não sei. Pelo segundo dia consecutivo estou … Romântico demais para saber, para objetivar qualquer abstração.

Oh, minha musa (pois ainda espero que a srta. Atorama de fato leia esse meu blog), seja sob que forma tu apareças por sobre mim, que curvas espectrais e tremitantes (flagelos harmoniosos) delineam seu movimento e que aparatos biológicos e cognitivos tu utilizes para apreender meus singelos textos, todos sem exceção dirigidos a ti, numa ou noutra proporção. Tenho algo a lhe dizer: seja bem vinda. E, sendo a única certeza a certeza da beleza multiforme contida em ti, até o nosso encontro (ou reencontro), até todo o sempre. E até nunca mais.

“Symphony X – A Winter’s Dream”

É engraçado como novas descobertas musicais transformam nosso sangue em pura semântica, nos levando a ter aquela maldita vontade de mergulhar em nós mesmos por alguns instantes. Ó ato famigerado, se aventurar pela selva do eu é se perder sob a escuridão do ego. Mas, enfim, pelo propósito desse blog, achei que seria uma experiência positiva em desmantelar-me de minha quimera.

Pois bem. Há algumas boas semanas atrás fui procurado por um conviva meu, que me exigia que o ensinasse a ser mais culto, mais intelectual. Ora, se esse egocêntrico coiote não se sentiu em uma nobre cruzada desde então. Mas o que poderia ser eu senão um mediador a essa pobre alma, questionou morfeu enquanto eu meditava acordado. Pois um mediador serei! Afinal, nada mais sou senão um caipira que, dado aos caprichos da senhora sorte, tropeçou em alguns Sartres e Baudelaires e resolveu, daquele dia em diante, escrever e falar em léxicos complicados e inconclusivos.

Estava logo sob essa reflexão ontem de tarde quando fui surpreendido pelo som de carros de campanha eleitoral. Que discursos aqueles! Talvez os senhores engravatados que estampam as portas laterias se sentiriam um pouco menos culpados dizendo não “A esperança com Alex Manente”, mas sim “A esperança de Alex Manente”. As necessidades de votos e números para o candidato, em sua voz, se transformam em promessas ao povo, por vezes faraônicas em seu âmbito. Esperança…. ha!

Descanse em paz, Richard Wright!!! Estás em um lugar melhor…

“Pink Floyd – On the Turning Away”

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