Já havia comentado sobre como ando me sentindo um herói proustiano nestes últimos meses de tão agitado e veloz ano. Pelo menos eu acho (embora no mundo do hipertexto e dos tags este termo esteja em desuso, adoraria ainda poder me apegar a tão humana desconsideração juvenil do meramente material e racional). Este artigo, depois de mais de um mês sem postar nada, nasceu de mais um momento peculiarmente ínfimo.

Pois bem, estava hoje cavando alguns papéis da faculdade para pegar material de estudo para a prova de Teoria da Comunicação (um curso de fato muito interessante) quando me caiu no colo um papel dobrado em quatro, dado a mim pela colega Érica. Foi-me presenteado depois dela ter sabido de minha ignorância e eventual curiosidade sobre o termo Deus ex Machina. Me detive sobre aquela folha com surpreendente curiosidade, como que galgando os jardins do jovem Swann, ou mesmo sorvendo do famoso chá de lima. O verbete discorria como a seguir:

[1]  Essa expressão latina significa ‘deus da máquina’ ou ‘deus surgido da máquina‘. É a introdução de uma personagem exógena, que não faz parte da narrativa, mas que aparece para desatar o nó, os conflitos existentes nela. (…) Nos tempos modernos a expressão é usada para designar um conflito aparentemente insolúvel, que acaba resolvido por uma pessoa ou uma situação que surge repentinamente.”

Bem. O filósofo grego Aristóteles, sobre o teatro antropomórfico de sua época, que por vez ou outra se utilizava do recurso narrativa do Deus ex Machina para a obtenção do efeito trágico (efeito este que é a raison d’etré de qualquer obra de arte), criticava seu uso por ser uma ferramenta que sacrificava a verossimilhança. O que faz um bocado de sentido quando o que você almeja é a ars poética da mimése, da representação do real. Mas, pessoalmente, vejo a idéia como uma faceta tão enraizada em nós, tão óbvia e, ao mesmo tempo, dilacerante, que não nos provoca praticamente nada quanto externalizada por um meio artístico. São as buscas constantes por uma resposta, por um salvador, pelo alívio do amor (embora a coisa aí seja mais complexa) e pela cura  xamanista. A busca final do eu no outro, no exógeno.

Não é, cara srta. Atorama?

“Jason Becker – Air”

A viagem de troleibus hoje, sob um inesperado céu seco e abafado, me mostrou o horror: a admiravelmente bela garota, que atende um minúsculo celular com um olhar congelante, um sorriso da mais doce ironia e cabelos esvoaçantes que ilustrava o outdoor da operadora Claro foi discretamente trocada, no fim de semana, por um cartaz vermelho, de dizeres alvos, sobre os cursos oferecidos pela instituição de ensino Mackenzie!

Ia divagar sobre minhas novas desventuras no campo do Eros (que parecem um agoniante ciclo, um Oroboros de equívocos e falta de pragmática), mas vou poupar-lhes a retórica: a coisa toda não presta. Basta saber que a droga dos cartazes da bela garota de olhar irônico e sorriso congelante foram trocados pela porcaria do M maiúsculo de fundo vermelho.

A porta do banheiro casperiano me deixa a dica: CHUPA MAQUÊNZA!!!

“The Ink Spots – I Don’t Want to Set the World on Fire”

Toda essa questão sobre a memória me faz crer que um homem jamais deve viver sem seus castelos, e me deixa, assim, em algum tipo de paz interna com minha quimera. Enquanto tomava mais um gole de café na cozinha, minha mão se desvinculava da caneca rubra e esbarrava no power de algum televisor. No equívoco, fui recebido pela fábula triste (entretanto fantasiada com aspas felizes e músicas agitadas) de algumas garotas de um núcleo elitizado da capital do Rio de Janeiro. A apresentadora as acompanhava a um banho de loja e as pobres garotas (de nove a onze anos) esbanjavam preocupações sobre linhas de seda ou o caimento de t-shirts de algodão, com um timbre moderno que deixaria Yves Saint-Lourant inquieto.

Não consegui acompanhar muito mais daquilo. Não apenas por ser alguma espécie de bruto machista ou coisa que valha, mas por pura questão de pena: o que será da felicidade dessas meninas no futuro, que tipo de pessoas serão? As cabeças vinculadas a valores de capital utilitários, as preocupações com o puramente concreto, com o que é visto sem ser observado. Imannuel Kant, por mais chato que fosse, já deixava claro a diferença entre o real e a compreensão do real, onde, imagino, se manifesta o lúdico, a fantasia. Fantasia essa proveniente não só de um conjuntinho fashion, mas de peças de montar, videogames 8-bit, livros, miniaturas, bonecos e bonecas e arlequins saltitantes, cachorrinhos de madeira empurrados por engenhocas de molas e fios, tudo aquilo que incitou nossa infância e nos remete a nossas primaveras e que, finalmente, nos possibilita driblar as dificuldades do puramente concreto.

Não incito nínguem aqui a alienação, mas gostaria de pensar que possamos ter um apreensão mais ampla do que nos cerca e de nossa própria imagem através de um pensamento disposto à criatividade lúdica e à curiosidade, ministrado por estes professores de armaduras negras, chapéus de asa de corvo e metais imantados.

“Rolling Stones – You Can’t Always Get What You Want”

Estou um pouco emocionado com os resultados de minha “pilhagem” pela WWW hoje (em termos do monsieur Pierre Lévy). Em resumo, hoje me reencontrei com um de meus ídolos da pré-adolescência: o compositor Akira Yamaoka, familiar para os video gamísticos de plantão. Incrível como já passei viagens de metrô inteiras em companhia de minha amiga discutindo uma ou outra obra em particular desse gênio, para apenas sumir sob as efemérides utilitarias da minha cachola.

Talvez responsável indireto por tal resgate seja o fato de que finalmente tive saco para terminar de assistir “Terror em Silent Hill”. Não me entendam mal, o início é até muito interessante e há algumas cenas memoráveis, mas conforme o filme chega a sua conclusão a coisa desanda completamente: a violência desregrada e vulgar típica dos thrillers hollywoodianos toma o lugar da sensibilidade, enquanto um bando de preceitos cristão-ocidentais e imagens fanáticas super clichés tentam explicar o fenômeno de Silent Hill.

Não imagino que preciso dizer que a mitologia do jogo seja uma colcha bem complexa: ela, sim, se utiliza de religião, mas não faz disso o ponto focal. A questão da família, dos laços humanos e da mémoria são imprescindíveis à narrativa. Nem mesmo as criaturas fogem a complexidade. É só lembrar que o Pyramid Head, vinda do Silent Hill 2, não é apenas um babaca silencioso que fica enfiando espadas gigantes por entre portas de metal, mas sim uma manifestação mnemônica do passado de Sunderland (imagino que esse seja o nome correto) e de suas ligações com a cidade amaldiçoada. Eles constroem uma cadeia semiótica incrível, sem a qual o terror não existiria. Sim, o terror não está na violência e nos flashs rápidos e jogos de câmera à la videoclipes de MTV, como o filme parece empregar, mas sim na sensação de desolação e fraqueza que as personagens passam ao jogador, e na ambientação bem calculada: novamente vivas à Akira Yamaoka, e a natureza rasgada e inesperada de seu timbre musical.

Era passado das 22:30. Passado tambem de uma interessante aula de sociologia, uma discussão sobre as teorias de newsmaking. Sem dúvida a última coisa que me passou pela cabeça na noite, desviando de aglomerações miscigênicas na rua Augusta. Não sei, algo nessa mítica faixa de concreto me seduz tanto quanto me deprime. Acho que o mais seguro é dizer que ela reflete e aumenta minha natureza momentânea, como numa casa de espelhos daquelas de parques de diversão.

Chegamos finalmente. A aglomeração humana na porta me pareceu demasiado homérica para valer a pena, ainda sob as diversas críticas que ouvi do lugar. “O vitrine tem uma pizza horrível”, “é lotada de emos”, “tem pizza até no banheiro!” eram frases que ecoavam por entre as sinapses já contraídas pelo cheiro de nicotina. E xilocaína. Brincadeira. Olha! Um sósia do Supla! Seria algo feito por propósito, uma campanha pró-Suplicy ou as pessoas de fato se vestem assim as vezes? Não sei… não fiquei sabendo. Fui arrancado de minhas reflexões por um chamado para entrar no recinto. O lugar é cobiçado, e parece que apenas pessoas que se encaixam num certo parâmetro comportamental tem a chance de desfrutar o ar boêmio do interior da pizzaria. Pessoas estranhas e sósias, esperem lá fora!

Já agraciado pelo abafado ar de dentro, fomos dirigidos a uma mesa antropológicamente interessante (logo na entrada), mas cujo conforto era questionável no minímo. Mesa para cinco, traga bebidas e duas pizzas. Pizzas que me pareceram boas de fato, medíocres para cima, mas longe de serem excelentes, claro. O lugar, embora lotado, não me pareceu tão sufocante. Talvez pela seleção de canções do Guns N’ Roses que deixou feliz meu eu headbanger. A conversa rolou agradável, a conta chegou e pudemos sair de novo aos ares noturnos, minha pessoa maravilhada por não ter sido obrigada a postar comentários nos fotologs de nínguem! Obrigado.

Metrô. Troleibus. Três quadras a serem vencidas à pé às 1:30 da manhã. Fui recepcionado no ponto por uma leve e quente garoa. Os ares boêmios de outrora dissolvidos sob a melancolia sub-aquática que rasgava o céu rubro da madrugada. A noite termina solitária. Sempre assim, um náutilus de possibilidades.

“Led Zeppelin – The Rain Song”