Eu temo. Temo que um dia as coisas belas da vida, sejam um sanduíche e uma xícara de chá em infusão nalgum canto da Pamplona, um belo sorriso ou algum pequeno cacoete de alguma garota (seus lábios de fato se movem vez ou outra para frente sob um nariz fino quando não estás a falar, Maga), sejam dispersas de seu encanto pela força esmagadora do cotidiano, do eterno retorno, do sucumbir frente aos impossíveis, a Homero e mil Ilíadas.

Temo isto. Isto e caranguejeiras. Já viste aquelas cretinas se esgueirarem pelo chão, com irregulares patas de ângulos góticos descrevendo um malicioso movimento anatômico, apenas para terminar dentro de um sapato esquecido? Senão, nem queira, meu amigo.

Nem queira: caranguejeiras, sapatos, lábios. Lábios, Homero, sanduíche.

Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Eu seus papiros Papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
Displicentemente o nervo se contrai
Ô, ô, ô, ô, com precisão!

Nos aviões que vomitavam pára-quedas
Nas casamatas, casas vivas caso morras
E nos delírios, meus grilos temer
O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento
Como um passatempo quero mais te ver
Ô, ô, ô, ô, com aflição!

Zé Ramalho - Vila do Sossego

Estava justamente a tirar alguns acordes dessa canção antes de começar meu Gabriel García Márquez quando fui atingido por uma imagem, um lampejo típico das personagens de Clarice Linspector. Vi uma moça de um longo vestido preto, um tomara-que-caia cujas belas curvas, emprestadas da dama em questão, tremiam sob a influência de um doce arranjo tonal vindo de meu violão, nós dois e um palco escuro e só. Me pareceu por um momento um resumo impactante de minha raisón d’ etre ou, ao menos, uma distração muito cara e viva para se negligenciar. Não sei. Pelo segundo dia consecutivo estou … Romântico demais para saber, para objetivar qualquer abstração.

Oh, minha musa (pois ainda espero que a srta. Atorama de fato leia esse meu blog), seja sob que forma tu apareças por sobre mim, que curvas espectrais e tremitantes (flagelos harmoniosos) delineam seu movimento e que aparatos biológicos e cognitivos tu utilizes para apreender meus singelos textos, todos sem exceção dirigidos a ti, numa ou noutra proporção. Tenho algo a lhe dizer: seja bem vinda. E, sendo a única certeza a certeza da beleza multiforme contida em ti, até o nosso encontro (ou reencontro), até todo o sempre. E até nunca mais.

“Symphony X – A Winter’s Dream”