Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Eu seus papiros Papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
Displicentemente o nervo se contrai
Ô, ô, ô, ô, com precisão!
Nos aviões que vomitavam pára-quedas
Nas casamatas, casas vivas caso morras
E nos delírios, meus grilos temer
O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento
Como um passatempo quero mais te ver
Ô, ô, ô, ô, com aflição!
Zé Ramalho - Vila do Sossego
Estava justamente a tirar alguns acordes dessa canção antes de começar meu Gabriel García Márquez quando fui atingido por uma imagem, um lampejo típico das personagens de Clarice Linspector. Vi uma moça de um longo vestido preto, um tomara-que-caia cujas belas curvas, emprestadas da dama em questão, tremiam sob a influência de um doce arranjo tonal vindo de meu violão, nós dois e um palco escuro e só. Me pareceu por um momento um resumo impactante de minha raisón d’ etre ou, ao menos, uma distração muito cara e viva para se negligenciar. Não sei. Pelo segundo dia consecutivo estou … Romântico demais para saber, para objetivar qualquer abstração.
Oh, minha musa (pois ainda espero que a srta. Atorama de fato leia esse meu blog), seja sob que forma tu apareças por sobre mim, que curvas espectrais e tremitantes (flagelos harmoniosos) delineam seu movimento e que aparatos biológicos e cognitivos tu utilizes para apreender meus singelos textos, todos sem exceção dirigidos a ti, numa ou noutra proporção. Tenho algo a lhe dizer: seja bem vinda. E, sendo a única certeza a certeza da beleza multiforme contida em ti, até o nosso encontro (ou reencontro), até todo o sempre. E até nunca mais.
“Symphony X – A Winter’s Dream”