Falar o óbvio é de fato uma arte, não livre de ser capaz de mexer com algum intelecto desocupado. Whitehouse compara o presente à um crivo, que resume o denso mar de possibilidades do futuro em uma única linha de ação e História (Caminito que el tiempo ha borrado), aquilo que compreende o passado. No momento – no microsegundo que seja – realizamos ou somos obrigados a realizar escolhas, entre uma infinita possibilidade de cenários, ação que, por si só, desenha a linha da vida passada, pra sempre perdida da pluralidade de sentidos. (He venido por última vez / He venido a contarte me mal).

Uma maçada. A visão simplificada desta metáfora anula quaisquer metaficções que projetamos em nosso passado, toda a pequena fábula que se tornou nosso primeiro dia na escola, o épico do primeiro beijo, a sinfonia do “eu te amo” matinal (Bordeado de trébol y juncos en flor). Gosto de pensar na metáfora de Whitehouse como se a linha do tempo fosse um fluído, cuja matéria – a possibilidade – não se perde, apenas se transmuta (una sombra ya pronto serás / una sombra lo mismo que yo). Um vestigial que dirige nossa visão de nosso próprio passado, aliado à fraqueza de nossa própria memória e ao gosto eterno por boas estórias. Assim, heróis da resistência, atrás somente da própria subsistência, se tornaram mártires da democracia, e com eles a História ganhou um quê de esplêndido exercício mental. Não me demorarei muito, e logo chego a conclusão (caminito amigo / yo también me voy): sendo o futuro e o passado resultados do mesmo líquido, o que importa na verdade é o recipiente, o crivo do presente, o que dá forma a todo o resto, a plena exploração das possibilidades. Bendita seja a geração do “live strong and die young”.

Em segunda conclusão: quão essencial a idéia de liquidez! Quer dizer, já se acreditava que campos de força eram resultados de fluídos invisíveis, e mesmo que dadas emoções poderiam ser mapeadas através de diferentes composições químicas – algo de muito similar ao conceito tribal do Mana. Agora tudo se resume ao estímulo elétrico, à Hertz – da cor dos seus lábios à sensação do toque teu, Maga – à resposta e ação – output to an input, and then back again.

Input. Output. Pasos. La mano del tiempo.

Meu violão modelo Eagle preto precisa de um polimento, para assentar o lustra-móveis e tirar o pó que ofusca o seu negrume. Ao buscar a flanela de algodão – sua superfície entrecortada pela ferrugem 0.9 D’Addario – me lembrei do episódio de hoje a noite. Conversava com outra garota num café noturno – sim, outra além da minha femme de madeira macia e acordoamento lustroso – enquanto ela lutava contra um saco de roupa. Uma azulada peça íntima saltava com a pressão exercida, talvez como um Sócrates que se esgueirava de debaixo de seu sudário, para omitir desejosas últimas palavras – no caso, possivelmente algo sobre intimidade e cumplicidade, algo de reforço. As duas imagens – a do soutien e a do anti-sofista – não se encontraram no momento exato. Ficaram a posteriori, visto que diverti-me por demasiado imensamente tanto com a metáfora quanto com o significante. Minutos antes de escrever isto, pra ser honesto.

Meu dia-a-dia soa doce, e o acorde sustentado de meu romance remete a um jazz (em tom maior, eu sei!) e à sábia puta de Cortázar: “If you ain’t got a dollar, gimme a lousy dime!”

É fato que sob o véu do cotidiano, bailam as curvas do surpreendente e do belo. Tudo o que é preciso é um senso aguçado. O caso de hoje: uma doce conversa com a To foi interrompida por um curioso pedinte, completo com a desculpa mais exótica e divertida que já ouvi. O homem dizia ser um correspondente indiano da CNN, que se perdeu ao fazer uma matéria aqui em terras brasileiras, e disse orgulhoso para nós “um dia eu ainda consigo” e fechava um pouco mais o paletó de algodão surrado, apanhado por uma repentina brisa.

Mais tarde, a cálida noite foi tomada pelo enebriante ar de um acordeon bufando Carlos Gardel, um tango roubado, pints e petiscos de milho e pimenta, destilados pela atmosfera abafada do Pub e por uma segunda, e igualmente divertida, conversa, desta vez com minha nobre irmãzinha adotiva. Bem, como podem supor, a prosa aqui é desnecessária. Afinal, colocando em termos de Jorge Luís Borges, esta noite sou o ser menos apto à literatura.

A débil luz do automotor batia em meu reflexo, do melhor jeito que luzes débeis de automotores podem fazer nestes tempos pós-modernos. Um misto de algum personagem azul de Picasso com o bom e velho Erik das profundezas da ópera de Paris – suas cavidades oculares abismos desumanos – se destacavam do negrume da noite fria de fora, e me comtemplava infantilmente, respondia simetricamente ao meu olhar, no péssimo hábito que os reflexos parecem ter ganhado do avã que recebem desde Dionísio e Adonis. O busto monocromático me agradava entretanto, embora minha mente estivesse diluída num certo enunciado em caixa alta.

Já meu estômago se lembrava. Ah, pois é este nobre orgão o maior responsável pela mnemônica – a mente presta serviços de courier, paperboy – justamente por que, embora soe um pouco adocicado, a caixa craniana não foi projetada para comportar qualquer espécie de borboleta. Lembrava. Lembrava da famosa cafeteria ht@#vacAmalhAda. Ao entrar no recinto, fui bombardeado por nomes próprios – creio que comi com o Assunção e o José, e mais um grupo de jovens, que abafaram seus nomes com um diálogo sobre um Calígula estúpido – efiges de caneta esferográfica (algo de você, Maga), mas nenhuma conversa soou nada além de débeis murmurinhos, por mais que eu me esforçasse. Um lugar de ouvir, mas nunca escutar, de ver e nunca observar. Eis onde decidi tomar meu café, lembrou bem o vôo das mariposas.

O céu da manhã perolada era um ser vestigial, que me recomendava o porte de meu guarda-chuva. A garoa da madrugada passada ainda persistia nas ruas arborizadas do meu bairro, convidada pelas sufocadas copas de um leve verde amarelado, encharcando uma mala cheia de compotas deixadas pela cantina de uma escola infantil próxima. Pensei que, em alguma daquelas ruas, prosseguia o comboio da guarda montada, em sua lenta ronda anacrônica. Estavam errados os estudiosos ao dizer que os veículos motorizados mataram o Flaneur, quando este estava sucumbindo desde as épocas da domesticação animal em massa. Minha reflexão quebrada pelo latido de um arisco cachorro, imaginei que morrerei de saudades da minha cidade em algum ponto de minha jornada. Oh, a insustentável leveza dos seres itinerantes!

Estou a descer na estação Clínicas todo dia pouco antes do almoço e depois dos amantes acordarem de suas voluptuosas rotinas noturnas. Ao menos nas segundas-feiras, que matam os fecundos ares do domingo na cidade, dos cigarros e dos tragos que encobrem a doce bruma das idéias. Os seguintes dias não foram feitos para o amor. São material para cemitérios, penso enquanto cruzo o do Araçã, para pegar um outro ônibus para o emprego.

Logo antes de entrar é meu costume perguntar se a condução passa em frente a Necrópole São Paulo, meu destino final (meu dia é de fato de uma ironia constante). Assim subo uma certa manhã em um ônibus e me preparo para lançar a pergunta quando me deparo com uma mulher. Seu rosto apenas uma parte do que já foi, uma fina fenda bipartida no lugar do nariz e as maças do rosto rochosas e pálidas. Questionei, de frente àquele sorriso perpétuo e indiferente, liberto da prisão semântica dos lábios, o mau agouro de fazer a velha questão de sempre e decidi tomar o ônibus para onde quer que ele fosse.

Me peguei pensando em quanta coisa me faz deixar de sair de casa e no pequeno vício que uma tal garotinha me provoca (diria que devido sua natureza benéfica a longo prazo e os danos a curto prazo, seria mesmo um contrário da ascepção tradicional, talvez mesmo um anti-vício). Anti-vício ou não, pensei que os danos, por maiores que sejam, jamais deveriam subjulgar a vontade de viver. O semblante esquelético da segunda jamais deve afundar a pulsante vida surgida do ventre dos domingos.

Hoje novos integrantes chegaram no escritório, e o clima é sempre bem divertido quando temos gente nova. Eram umas 14:00 da tarde quando eles decidiram se lançar na aventura de pedir o almoço (uma arte que se assemelha em muitos pontos às caças ancestrais). Cheguei perto, menos para dar uma ajuda do que para relembrar o número em si – vejam que eu não me dou bem com papeizinhos post-it e vivo perdendo telefones. Estava anotando o número quando decidi perguntar o que eles faziam da vida. Descobri, assim, uma analista de sitemas iniciante e um estagiário de TI. Ao rebaterem a pergunta, e ouvirem que eu sou jornalista, seus olhares se dirigiram a mim de uma forma meio… inesperada. Parecia que estávamos numa fogueira de acampamento e que eu acabara de chegar no clímax sanguinolento dalguma estória de horror, enquanto os garotos esperavam ansiosos. Ia contar talvez a estória do Consul indiano, mas ao invés disso peguei o papel, rabisquei o endereço e disse: “Aqui está! Olha só, não esqueçam de teclar zero antes do número.” virei as costas e voltei ao trabalho.

O céu está tão nublado lá fora que tive que voltar para apanhar meu casaco. O belo céu perolado me investiga do alto da nobre São Bernardo do Campo. Saio pela porta e adentro o pequeno hall do elevador. O dia já não importa aqui, o céu branco e os sussurros sem personagens abafados pela transitoriedade do espaço. O elevador, a quem tinha acabado de chamar, baila em um compasso lento. 1, 15, 7,0,-1,-2, Pi. E como de praxe, ele me alcança já vazio. É uma deliciosa metáfora de minhas (in)habilidades românticas. A ironia me abraça de dentro do espelho e me beija a testa, e eu não posso evitar soltar ao menos uma risada. A vida é bela.

Logo de saída, a rua me demonstra suas novidades, seus novos aromas. O cheiro doce do café sendo preparado em botequins e cafeterias, o agridoce aroma de pipocas em banquinhas minúsculas e o salino perfume de colegiais joviais e saltitantes, sob os efeitos da nova leva de piadas dos sres. coleguinhas exaltados, me lembram que estou justamente no horário de perder meu troleibus (aprendi não muito tempo que essa é a grafia certa). Aperto o passo. A vida se agita em sua vênus.

Ah, aqueles dentre os aspirantes a sociológos! Acreditem em mim. Estar em pé em meio a onda humana que encharca o transporte público, tentando decifrar a divertida charada de quem descerá antes e lhe cederá um lugar, é um incrível exercício das idéias de Pierre Bourdieu. É quase uma Paris do século XIX. E por alguma razão, hoje escolhi justo um casal com todo o jeito de descer na última estação, aproveitando o passeio de gondola pela veneza de asfalto em pé.

Sufocado pelos sussurros cotidianos, o alto-falante tocava Bryan Adams.

E eu estava meio que gostando.