O céu está tão nublado lá fora que tive que voltar para apanhar meu casaco. O belo céu perolado me investiga do alto da nobre São Bernardo do Campo. Saio pela porta e adentro o pequeno hall do elevador. O dia já não importa aqui, o céu branco e os sussurros sem personagens abafados pela transitoriedade do espaço. O elevador, a quem tinha acabado de chamar, baila em um compasso lento. 1, 15, 7,0,-1,-2, Pi. E como de praxe, ele me alcança já vazio. É uma deliciosa metáfora de minhas (in)habilidades românticas. A ironia me abraça de dentro do espelho e me beija a testa, e eu não posso evitar soltar ao menos uma risada. A vida é bela.

Logo de saída, a rua me demonstra suas novidades, seus novos aromas. O cheiro doce do café sendo preparado em botequins e cafeterias, o agridoce aroma de pipocas em banquinhas minúsculas e o salino perfume de colegiais joviais e saltitantes, sob os efeitos da nova leva de piadas dos sres. coleguinhas exaltados, me lembram que estou justamente no horário de perder meu troleibus (aprendi não muito tempo que essa é a grafia certa). Aperto o passo. A vida se agita em sua vênus.

Ah, aqueles dentre os aspirantes a sociológos! Acreditem em mim. Estar em pé em meio a onda humana que encharca o transporte público, tentando decifrar a divertida charada de quem descerá antes e lhe cederá um lugar, é um incrível exercício das idéias de Pierre Bourdieu. É quase uma Paris do século XIX. E por alguma razão, hoje escolhi justo um casal com todo o jeito de descer na última estação, aproveitando o passeio de gondola pela veneza de asfalto em pé.

Sufocado pelos sussurros cotidianos, o alto-falante tocava Bryan Adams.

E eu estava meio que gostando.