Acordei ontem com minha cabeça lotada, além da constante menina dos olhos, de aforismos de Kuzinski e Chasin. O Capital Atrófico, resultante da via colonial, foi desfiar sua ascepção para se tornar um simples complemento, companheiro da dor muscular lascinante que havia sentido na panturrilha há algumas horas. Saí apressado de casa, em tempo do sol esgueirar-se pelas fendas carbonadas do céu.

Ao chegar ao ponto de troleibus, e depois de ajudar meu irmao a entrar com as bagagens da viagem no carro, notei que um senhor se prostava em direção a um detalhe no chão, e ao capturá-lo na pinça de dedos delgados, se deteu a olhar consideravelmente o pequeno objeto. “Olha, achei que fosse um centavo, mas deve ser de algum lugar do Japão”, disse inesperadamente, e com uma animação que atualmente apenas encontro em minha irmãzinha. Divertido com o diálogo, inclinei-me a olhar com profundidade e curiosidade juvenis a moeda enfeitada de monogramas que me lembraram mais um alfabeto mandarim: “Hm, creio que seja um Yan, a moeda japonesa tem um furo no meio…”.

Continuamos a conversa, e fiquei descobrindo que o senhor (que me lembra um misto de Dustin Hoffman e Clint Eastwood) colecionava em uma tira de couro uma diversidade de moedas. “Eu quero guardá-las para que meus filhos possam ficar com elas. Imagine, daqui a uns vinte anos, quanto elas estarão valendo?”

Pensei tudo isso enquanto quitávamos eu, o Jotapê e a Clarinha as contas da noite no Padabar. Eu pago três! e entregava o VR. Me despedi da mesa, apresentado às pressas a alguns novos camaradas, caminhei até a saída de forma inerte, e fui retirado da reflexão apenas por um sorriso cândido e um compassado “vamos, Maninho!”

Engraçado como meu dia acaba em tantas ponderações que por vezes esqueço a riqueza que compreende as tardes e noites de eternos retornos num parâmetro mais ocular. O homem do semáforo pintou novos verbetes na cartolina, mas não os li. Por entre o brêu dos túneis em alta velocidade, edificados sob as necessidades de tantos homens e de tanto atrevimento, um trem passa, sua aceleração o transformando em um leviatã etéreo, que dispara por entre as colunas de cimento e, logo após, some, como um fantasma que acabava de ser exorcizado de minha vista. A chuva no vidro do retorno me colocava a par de algumas memórias.

Interessante também como a gente encara as vicissitudes quando de bom humor e de garganta vazia: me lembrei, sob o aguaçeiro, de uma garoa que eu tomei num fim de tarde com meu pai, caminhando por copacabana (o velho adora caminhadas vespertinas), vigiados por um céu azul claro que vinha a se confundir na pele dos banhistas e do horizonte e por um silêncio entrecortado por alguma conversa. Acho que nunca falamos algo muito impactante ou mesmo memorável um para o outro, mas um momento é o bastante para imortalizar alguém e um dia basta para resumir a vida de um grande homem.

“Trans Siberian Orchestra – The Moment”