Eu temo. Temo que um dia as coisas belas da vida, sejam um sanduíche e uma xícara de chá em infusão nalgum canto da Pamplona, um belo sorriso ou algum pequeno cacoete de alguma garota (seus lábios de fato se movem vez ou outra para frente sob um nariz fino quando não estás a falar, Maga), sejam dispersas de seu encanto pela força esmagadora do cotidiano, do eterno retorno, do sucumbir frente aos impossíveis, a Homero e mil Ilíadas.

Temo isto. Isto e caranguejeiras. Já viste aquelas cretinas se esgueirarem pelo chão, com irregulares patas de ângulos góticos descrevendo um malicioso movimento anatômico, apenas para terminar dentro de um sapato esquecido? Senão, nem queira, meu amigo.

Nem queira: caranguejeiras, sapatos, lábios. Lábios, Homero, sanduíche.

“Não há nada mais âmbiguo que nossas memórias”. A anedota me pareceu cabível: embora eu conte com uma míriade de itens que me recordam os fantasmas de meu passado (que, ironicamente, se compõe exclusivamente do sexo feminino) não posso dizer que a ordem e as redes significantes que se formam não se agrupam por força de uma vontade maior. Talvez aquela que reorganiza tudo em uma narrativa de fácil aceitação, aquela mesma que cria pantheons de conforto existencial em figuras mitológicas.

Claro, botas de cano alto me lembram uma certa garota de jeans claros e casacos “planet girls”, enquanto sobreposições curtas e “boy bands” me lembram uma segunda, cuja compreensão por vezes me foge, vitimada novamente pelas mitologias do nosso sub-consciente. Uma terceira, ainda, me lembra de corpetes escuras, um jab de direita dolorosa, um aniversário numa Vitrine que, ao menos daquela vez me deixou de bom humor (gracias, Mi!) e ,enfim, que dei a ela fatalmente (leia-se: esqueci de escanear) um desenho meu de presente.  Mas há casos um pouco mais complicados. Um em especial: a garota das botas me vem a mente, num sobressalto de sinapses e na revoluçao de íons, também sempre que sinto o cheiro de bolo de cenoura. Ressalto que, em uma época em que meu regime se manteve o mesmo no geral, nunca dividi com ela qualquer espécie de bolo de cenoura (música dramática!). São nossa quimeras capazes de devorar nossa memória a par de uma melhor semântica? É possível que construamos relações baseadas em ilusões fantasmagóricas? Isso sequer faz qualquer sentido?!

Enfim, de repente me sinto um bocado assustado com todo esse lance de “comunicação em redes”

“Iron Maiden – Hocus Pocus”

Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Eu seus papiros Papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
Displicentemente o nervo se contrai
Ô, ô, ô, ô, com precisão!

Nos aviões que vomitavam pára-quedas
Nas casamatas, casas vivas caso morras
E nos delírios, meus grilos temer
O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento
Como um passatempo quero mais te ver
Ô, ô, ô, ô, com aflição!

Zé Ramalho - Vila do Sossego

Estava justamente a tirar alguns acordes dessa canção antes de começar meu Gabriel García Márquez quando fui atingido por uma imagem, um lampejo típico das personagens de Clarice Linspector. Vi uma moça de um longo vestido preto, um tomara-que-caia cujas belas curvas, emprestadas da dama em questão, tremiam sob a influência de um doce arranjo tonal vindo de meu violão, nós dois e um palco escuro e só. Me pareceu por um momento um resumo impactante de minha raisón d’ etre ou, ao menos, uma distração muito cara e viva para se negligenciar. Não sei. Pelo segundo dia consecutivo estou … Romântico demais para saber, para objetivar qualquer abstração.

Oh, minha musa (pois ainda espero que a srta. Atorama de fato leia esse meu blog), seja sob que forma tu apareças por sobre mim, que curvas espectrais e tremitantes (flagelos harmoniosos) delineam seu movimento e que aparatos biológicos e cognitivos tu utilizes para apreender meus singelos textos, todos sem exceção dirigidos a ti, numa ou noutra proporção. Tenho algo a lhe dizer: seja bem vinda. E, sendo a única certeza a certeza da beleza multiforme contida em ti, até o nosso encontro (ou reencontro), até todo o sempre. E até nunca mais.

“Symphony X – A Winter’s Dream”