Falar o óbvio é de fato uma arte, não livre de ser capaz de mexer com algum intelecto desocupado. Whitehouse compara o presente à um crivo, que resume o denso mar de possibilidades do futuro em uma única linha de ação e História (Caminito que el tiempo ha borrado), aquilo que compreende o passado. No momento – no microsegundo que seja – realizamos ou somos obrigados a realizar escolhas, entre uma infinita possibilidade de cenários, ação que, por si só, desenha a linha da vida passada, pra sempre perdida da pluralidade de sentidos. (He venido por última vez / He venido a contarte me mal).

Uma maçada. A visão simplificada desta metáfora anula quaisquer metaficções que projetamos em nosso passado, toda a pequena fábula que se tornou nosso primeiro dia na escola, o épico do primeiro beijo, a sinfonia do “eu te amo” matinal (Bordeado de trébol y juncos en flor). Gosto de pensar na metáfora de Whitehouse como se a linha do tempo fosse um fluído, cuja matéria – a possibilidade – não se perde, apenas se transmuta (una sombra ya pronto serás / una sombra lo mismo que yo). Um vestigial que dirige nossa visão de nosso próprio passado, aliado à fraqueza de nossa própria memória e ao gosto eterno por boas estórias. Assim, heróis da resistência, atrás somente da própria subsistência, se tornaram mártires da democracia, e com eles a História ganhou um quê de esplêndido exercício mental. Não me demorarei muito, e logo chego a conclusão (caminito amigo / yo también me voy): sendo o futuro e o passado resultados do mesmo líquido, o que importa na verdade é o recipiente, o crivo do presente, o que dá forma a todo o resto, a plena exploração das possibilidades. Bendita seja a geração do “live strong and die young”.

Em segunda conclusão: quão essencial a idéia de liquidez! Quer dizer, já se acreditava que campos de força eram resultados de fluídos invisíveis, e mesmo que dadas emoções poderiam ser mapeadas através de diferentes composições químicas – algo de muito similar ao conceito tribal do Mana. Agora tudo se resume ao estímulo elétrico, à Hertz – da cor dos seus lábios à sensação do toque teu, Maga – à resposta e ação – output to an input, and then back again.

Input. Output. Pasos. La mano del tiempo.

O céu da manhã perolada era um ser vestigial, que me recomendava o porte de meu guarda-chuva. A garoa da madrugada passada ainda persistia nas ruas arborizadas do meu bairro, convidada pelas sufocadas copas de um leve verde amarelado, encharcando uma mala cheia de compotas deixadas pela cantina de uma escola infantil próxima. Pensei que, em alguma daquelas ruas, prosseguia o comboio da guarda montada, em sua lenta ronda anacrônica. Estavam errados os estudiosos ao dizer que os veículos motorizados mataram o Flaneur, quando este estava sucumbindo desde as épocas da domesticação animal em massa. Minha reflexão quebrada pelo latido de um arisco cachorro, imaginei que morrerei de saudades da minha cidade em algum ponto de minha jornada. Oh, a insustentável leveza dos seres itinerantes!

Toda essa questão sobre a memória me faz crer que um homem jamais deve viver sem seus castelos, e me deixa, assim, em algum tipo de paz interna com minha quimera. Enquanto tomava mais um gole de café na cozinha, minha mão se desvinculava da caneca rubra e esbarrava no power de algum televisor. No equívoco, fui recebido pela fábula triste (entretanto fantasiada com aspas felizes e músicas agitadas) de algumas garotas de um núcleo elitizado da capital do Rio de Janeiro. A apresentadora as acompanhava a um banho de loja e as pobres garotas (de nove a onze anos) esbanjavam preocupações sobre linhas de seda ou o caimento de t-shirts de algodão, com um timbre moderno que deixaria Yves Saint-Lourant inquieto.

Não consegui acompanhar muito mais daquilo. Não apenas por ser alguma espécie de bruto machista ou coisa que valha, mas por pura questão de pena: o que será da felicidade dessas meninas no futuro, que tipo de pessoas serão? As cabeças vinculadas a valores de capital utilitários, as preocupações com o puramente concreto, com o que é visto sem ser observado. Imannuel Kant, por mais chato que fosse, já deixava claro a diferença entre o real e a compreensão do real, onde, imagino, se manifesta o lúdico, a fantasia. Fantasia essa proveniente não só de um conjuntinho fashion, mas de peças de montar, videogames 8-bit, livros, miniaturas, bonecos e bonecas e arlequins saltitantes, cachorrinhos de madeira empurrados por engenhocas de molas e fios, tudo aquilo que incitou nossa infância e nos remete a nossas primaveras e que, finalmente, nos possibilita driblar as dificuldades do puramente concreto.

Não incito nínguem aqui a alienação, mas gostaria de pensar que possamos ter um apreensão mais ampla do que nos cerca e de nossa própria imagem através de um pensamento disposto à criatividade lúdica e à curiosidade, ministrado por estes professores de armaduras negras, chapéus de asa de corvo e metais imantados.

“Rolling Stones – You Can’t Always Get What You Want”

“Não há nada mais âmbiguo que nossas memórias”. A anedota me pareceu cabível: embora eu conte com uma míriade de itens que me recordam os fantasmas de meu passado (que, ironicamente, se compõe exclusivamente do sexo feminino) não posso dizer que a ordem e as redes significantes que se formam não se agrupam por força de uma vontade maior. Talvez aquela que reorganiza tudo em uma narrativa de fácil aceitação, aquela mesma que cria pantheons de conforto existencial em figuras mitológicas.

Claro, botas de cano alto me lembram uma certa garota de jeans claros e casacos “planet girls”, enquanto sobreposições curtas e “boy bands” me lembram uma segunda, cuja compreensão por vezes me foge, vitimada novamente pelas mitologias do nosso sub-consciente. Uma terceira, ainda, me lembra de corpetes escuras, um jab de direita dolorosa, um aniversário numa Vitrine que, ao menos daquela vez me deixou de bom humor (gracias, Mi!) e ,enfim, que dei a ela fatalmente (leia-se: esqueci de escanear) um desenho meu de presente.  Mas há casos um pouco mais complicados. Um em especial: a garota das botas me vem a mente, num sobressalto de sinapses e na revoluçao de íons, também sempre que sinto o cheiro de bolo de cenoura. Ressalto que, em uma época em que meu regime se manteve o mesmo no geral, nunca dividi com ela qualquer espécie de bolo de cenoura (música dramática!). São nossa quimeras capazes de devorar nossa memória a par de uma melhor semântica? É possível que construamos relações baseadas em ilusões fantasmagóricas? Isso sequer faz qualquer sentido?!

Enfim, de repente me sinto um bocado assustado com todo esse lance de “comunicação em redes”

“Iron Maiden – Hocus Pocus”