Estou um pouco emocionado com os resultados de minha “pilhagem” pela WWW hoje (em termos do monsieur Pierre Lévy). Em resumo, hoje me reencontrei com um de meus ídolos da pré-adolescência: o compositor Akira Yamaoka, familiar para os video gamísticos de plantão. Incrível como já passei viagens de metrô inteiras em companhia de minha amiga discutindo uma ou outra obra em particular desse gênio, para apenas sumir sob as efemérides utilitarias da minha cachola.
Talvez responsável indireto por tal resgate seja o fato de que finalmente tive saco para terminar de assistir “Terror em Silent Hill”. Não me entendam mal, o início é até muito interessante e há algumas cenas memoráveis, mas conforme o filme chega a sua conclusão a coisa desanda completamente: a violência desregrada e vulgar típica dos thrillers hollywoodianos toma o lugar da sensibilidade, enquanto um bando de preceitos cristão-ocidentais e imagens fanáticas super clichés tentam explicar o fenômeno de Silent Hill.
Não imagino que preciso dizer que a mitologia do jogo seja uma colcha bem complexa: ela, sim, se utiliza de religião, mas não faz disso o ponto focal. A questão da família, dos laços humanos e da mémoria são imprescindíveis à narrativa. Nem mesmo as criaturas fogem a complexidade. É só lembrar que o Pyramid Head, vinda do Silent Hill 2, não é apenas um babaca silencioso que fica enfiando espadas gigantes por entre portas de metal, mas sim uma manifestação mnemônica do passado de Sunderland (imagino que esse seja o nome correto) e de suas ligações com a cidade amaldiçoada. Eles constroem uma cadeia semiótica incrível, sem a qual o terror não existiria. Sim, o terror não está na violência e nos flashs rápidos e jogos de câmera à la videoclipes de MTV, como o filme parece empregar, mas sim na sensação de desolação e fraqueza que as personagens passam ao jogador, e na ambientação bem calculada: novamente vivas à Akira Yamaoka, e a natureza rasgada e inesperada de seu timbre musical.