É fato que sob o véu do cotidiano, bailam as curvas do surpreendente e do belo. Tudo o que é preciso é um senso aguçado. O caso de hoje: uma doce conversa com a To foi interrompida por um curioso pedinte, completo com a desculpa mais exótica e divertida que já ouvi. O homem dizia ser um correspondente indiano da CNN, que se perdeu ao fazer uma matéria aqui em terras brasileiras, e disse orgulhoso para nós “um dia eu ainda consigo” e fechava um pouco mais o paletó de algodão surrado, apanhado por uma repentina brisa.

Mais tarde, a cálida noite foi tomada pelo enebriante ar de um acordeon bufando Carlos Gardel, um tango roubado, pints e petiscos de milho e pimenta, destilados pela atmosfera abafada do Pub e por uma segunda, e igualmente divertida, conversa, desta vez com minha nobre irmãzinha adotiva. Bem, como podem supor, a prosa aqui é desnecessária. Afinal, colocando em termos de Jorge Luís Borges, esta noite sou o ser menos apto à literatura.

A débil luz do automotor batia em meu reflexo, do melhor jeito que luzes débeis de automotores podem fazer nestes tempos pós-modernos. Um misto de algum personagem azul de Picasso com o bom e velho Erik das profundezas da ópera de Paris – suas cavidades oculares abismos desumanos – se destacavam do negrume da noite fria de fora, e me comtemplava infantilmente, respondia simetricamente ao meu olhar, no péssimo hábito que os reflexos parecem ter ganhado do avã que recebem desde Dionísio e Adonis. O busto monocromático me agradava entretanto, embora minha mente estivesse diluída num certo enunciado em caixa alta.

Já meu estômago se lembrava. Ah, pois é este nobre orgão o maior responsável pela mnemônica – a mente presta serviços de courier, paperboy – justamente por que, embora soe um pouco adocicado, a caixa craniana não foi projetada para comportar qualquer espécie de borboleta. Lembrava. Lembrava da famosa cafeteria ht@#vacAmalhAda. Ao entrar no recinto, fui bombardeado por nomes próprios – creio que comi com o Assunção e o José, e mais um grupo de jovens, que abafaram seus nomes com um diálogo sobre um Calígula estúpido – efiges de caneta esferográfica (algo de você, Maga), mas nenhuma conversa soou nada além de débeis murmurinhos, por mais que eu me esforçasse. Um lugar de ouvir, mas nunca escutar, de ver e nunca observar. Eis onde decidi tomar meu café, lembrou bem o vôo das mariposas.

Acordei ontem com minha cabeça lotada, além da constante menina dos olhos, de aforismos de Kuzinski e Chasin. O Capital Atrófico, resultante da via colonial, foi desfiar sua ascepção para se tornar um simples complemento, companheiro da dor muscular lascinante que havia sentido na panturrilha há algumas horas. Saí apressado de casa, em tempo do sol esgueirar-se pelas fendas carbonadas do céu.

Ao chegar ao ponto de troleibus, e depois de ajudar meu irmao a entrar com as bagagens da viagem no carro, notei que um senhor se prostava em direção a um detalhe no chão, e ao capturá-lo na pinça de dedos delgados, se deteu a olhar consideravelmente o pequeno objeto. “Olha, achei que fosse um centavo, mas deve ser de algum lugar do Japão”, disse inesperadamente, e com uma animação que atualmente apenas encontro em minha irmãzinha. Divertido com o diálogo, inclinei-me a olhar com profundidade e curiosidade juvenis a moeda enfeitada de monogramas que me lembraram mais um alfabeto mandarim: “Hm, creio que seja um Yan, a moeda japonesa tem um furo no meio…”.

Continuamos a conversa, e fiquei descobrindo que o senhor (que me lembra um misto de Dustin Hoffman e Clint Eastwood) colecionava em uma tira de couro uma diversidade de moedas. “Eu quero guardá-las para que meus filhos possam ficar com elas. Imagine, daqui a uns vinte anos, quanto elas estarão valendo?”

Pensei tudo isso enquanto quitávamos eu, o Jotapê e a Clarinha as contas da noite no Padabar. Eu pago três! e entregava o VR. Me despedi da mesa, apresentado às pressas a alguns novos camaradas, caminhei até a saída de forma inerte, e fui retirado da reflexão apenas por um sorriso cândido e um compassado “vamos, Maninho!”

Era já noite avançada. Avançado também o cair leve da madrugada úmida. Cobrindo eu e a minha nobre irmãzinha da chuva, o guarda-chuva pouco vacilava nas frias mãos de minha companheira e, em identico movimento, pouco vacilava minha cegueira cinza. Imagine, quão fatal a diferença entre estaturas. Indiferente da desvantajosa posição, ambos trocávamos alguns verbetes de nossas vidas (efêmeras, passageiras, ok! Mas também infinitamente belas). O soprar do dente-de-leão acompanhava nossos passos, que prosseguiam na proximidade exigida pela circunferência de minha cegueira cinza, que tornava a garota meu único ponto guia, minha estrita referência.

Oh! Como vivemos indiferentes, cegos ao presente, fantasmas no limbo entre o passado e suas quimeras, e o futuro e sua expectativa vacilante. E quanto mais negro se torna o passado, maior é o brilho que permeia as esperanças do futuro, e o contrário é válido, até mesmo mais. Todo o movimento guiado por madonas, vênus que tampouco sabem que enfiaram o maldito guarda-chuva de tal modo em nossos coletivos focinhos que só podemos ver do presente suas pegadas.

Porque não pedi para a maninha tirar o aparato da minha frente pouco tem a ver com cordialidade, um pouco mais a ver com afetos e sentimentos e um bocado mais a ver com a natureza escapista do humano. Do presente só as pegadas, flor de lítio, eu quero é ouvir algum diabo de história!

A viagem de troleibus hoje, sob um inesperado céu seco e abafado, me mostrou o horror: a admiravelmente bela garota, que atende um minúsculo celular com um olhar congelante, um sorriso da mais doce ironia e cabelos esvoaçantes que ilustrava o outdoor da operadora Claro foi discretamente trocada, no fim de semana, por um cartaz vermelho, de dizeres alvos, sobre os cursos oferecidos pela instituição de ensino Mackenzie!

Ia divagar sobre minhas novas desventuras no campo do Eros (que parecem um agoniante ciclo, um Oroboros de equívocos e falta de pragmática), mas vou poupar-lhes a retórica: a coisa toda não presta. Basta saber que a droga dos cartazes da bela garota de olhar irônico e sorriso congelante foram trocados pela porcaria do M maiúsculo de fundo vermelho.

A porta do banheiro casperiano me deixa a dica: CHUPA MAQUÊNZA!!!

“The Ink Spots – I Don’t Want to Set the World on Fire”

Engraçado como meu dia acaba em tantas ponderações que por vezes esqueço a riqueza que compreende as tardes e noites de eternos retornos num parâmetro mais ocular. O homem do semáforo pintou novos verbetes na cartolina, mas não os li. Por entre o brêu dos túneis em alta velocidade, edificados sob as necessidades de tantos homens e de tanto atrevimento, um trem passa, sua aceleração o transformando em um leviatã etéreo, que dispara por entre as colunas de cimento e, logo após, some, como um fantasma que acabava de ser exorcizado de minha vista. A chuva no vidro do retorno me colocava a par de algumas memórias.

Interessante também como a gente encara as vicissitudes quando de bom humor e de garganta vazia: me lembrei, sob o aguaçeiro, de uma garoa que eu tomei num fim de tarde com meu pai, caminhando por copacabana (o velho adora caminhadas vespertinas), vigiados por um céu azul claro que vinha a se confundir na pele dos banhistas e do horizonte e por um silêncio entrecortado por alguma conversa. Acho que nunca falamos algo muito impactante ou mesmo memorável um para o outro, mas um momento é o bastante para imortalizar alguém e um dia basta para resumir a vida de um grande homem.

“Trans Siberian Orchestra – The Moment”

Sentado no banco já desocupado de calor humano sob o frio glacial. Lá fora, um destacamento de edifícios, edificações e esfinges. Todos devidamente deflorados por torrentes pegajosas e belas de aerossois multicolores. Palimpsestos. Rosas em capotes alemães. Lírios recostados ao cano de fuzis Mosin-Nagant. Meu espírito externado. Chovia. Uma revista, dividida desconfortavelmente por duas garotas, colegiais pelo que pude destacar, me demonstrava, na metade de sua face, um anúncio: “7 posições para chegar Lá”. Lá. Lá, onde todos querem alcançar: poetas, escritores, músicos (la la la) e afins. Lá me lembra a conversa de minutos atrás. Lá, dividindo uma mesa de fast-food com as garotas (todas atualmente sob os infortúnios de amores e desapegos), discutimos o perigoso tema do amor. Não nos apaixonamos pelos defeitos, como dizem, mas nem por isso eles não tem importância. Imagino que eles fazem parte de uma transição, uma fase de brutal importância, que, ainda assim não leva a muita coisa. Afinal, muita coisa nunca foi a questão do amor, quando tampouco é a felicidade.

Pensei na srta. Atorama (Sim, VOCÊ), e agradeço ao menos ter conhecido apenas as quimeras de minhas paixões até ter de desapegar delas. Chovia, e tudo o que eu queria era um café preto. Negro como toda danação, amargo como um beijo teu. E só.

“Radiohead – Paranoid Android”