Era já noite avançada. Avançado também o cair leve da madrugada úmida. Cobrindo eu e a minha nobre irmãzinha da chuva, o guarda-chuva pouco vacilava nas frias mãos de minha companheira e, em identico movimento, pouco vacilava minha cegueira cinza. Imagine, quão fatal a diferença entre estaturas. Indiferente da desvantajosa posição, ambos trocávamos alguns verbetes de nossas vidas (efêmeras, passageiras, ok! Mas também infinitamente belas). O soprar do dente-de-leão acompanhava nossos passos, que prosseguiam na proximidade exigida pela circunferência de minha cegueira cinza, que tornava a garota meu único ponto guia, minha estrita referência.

Oh! Como vivemos indiferentes, cegos ao presente, fantasmas no limbo entre o passado e suas quimeras, e o futuro e sua expectativa vacilante. E quanto mais negro se torna o passado, maior é o brilho que permeia as esperanças do futuro, e o contrário é válido, até mesmo mais. Todo o movimento guiado por madonas, vênus que tampouco sabem que enfiaram o maldito guarda-chuva de tal modo em nossos coletivos focinhos que só podemos ver do presente suas pegadas.

Porque não pedi para a maninha tirar o aparato da minha frente pouco tem a ver com cordialidade, um pouco mais a ver com afetos e sentimentos e um bocado mais a ver com a natureza escapista do humano. Do presente só as pegadas, flor de lítio, eu quero é ouvir algum diabo de história!

Dedico o artigo de hoje à uma pequena reflexão, um protesto singelo, porém energético sobre o pensamento maniqueísta. Se há algo que a metafísica iluminista nos deixou de herança é o trabalho intenso em cima das dualidades: das trevas e da luz, do bem e do mal. É algo que acabamos mesmo por praticar no dia-a-dia, seja da atual situação da violência na metrópole paulistana, a questão dos morros cariocas ou mesmo em situações que não nos damos conta. Nos enraivecemos com um motorista que corta a faixa logo na frente de nossos carros, ou com alguma senhora que empaca a fila das gondôlas, ou de um casal despudoradamente se acariciando, e chegamos mesmo a pensar que eles planejam diabolicamente tais ações para perturbar nossa placidez. O mal subjulga o bem, a algazarra, a paz e a ordem, a desordem. Concordo que seja uma ótica bem atrativa, e vez ou outra isto me passa pela cabeça (principalmente no trânsito paulistano), mas sejamos honestos, é extremamente pouco pragmática. O contexto, meus caros! O contexto é de vital importância para que possamos apreender mais ricamente o que, em inicial análise, é o que os músicos do Jethro Tull resumiram bem como “all the little things that spoils my day”! O contexto é diverso para cada indivíduo e se considerarmos a vasta quantidade de possíveis cenários, teremos ainda maior números de possíveis condutas. Em termos simples: o que é certo para alguns não necessariamente se aplica a todos; o que parece uma péssima idéia para uns, é a única saída para outros. Deixar a coisa assim vai contra os príncipios objetivos do raciocínio e devo confessar que, quanto mais fundo se vai na reflexão sobre temas pesados e violentos, maior se torna a sensação de que de fato estamos mocinhos contra bandidos. Ah! Mas vá lá! Essa é uma saída simples para o abismo de Nietzsche. É negligenciar seu olhar negro e sua natureza vertiginosa.

Como um adendo, coloco para enriquecer a prosa o fato a seguir: há alguns dias se tornou um pouco claro para mim que uma certa garota (sua verdadeira identidade um segredo mesmo no divertido diálogo com minha irmã adotiva – esta que, nesses últimos tempos deixou de fazer meu sangue ferver apenas e substituiu por uma certa preocupação paterna minhas atitudes equivocadas e bobas. Diabos, eu de fato a trato como uma garotinha às vezes, embora, como a Maga de Cortázar, ela bem que me dá razões para tal!) AHAM! …Uma certa garota apresenta-se em diferentes facetas, das quais raramente posso intercalar vivências. Assim sendo, a garota 1 com quem passeei nalguma tarde não é a garota 2 com quem me encontro para uma conversa noturna e, tampouco, as duas se assemelham à onírica garota 3, que se introduz justamente em sua ausência. Amo igualmente as três. Suponho a partir disto que a singularidade, a linearidade de ações e condutas não é nada natural do humano, nem tampouco de seu espírito.

E assim vai meu cotidiano social, na doce e utópica ilusão de que minha disposição verbal objetive com sucesso minhas densas e complicadas excentricidades. Enquanto subo de forma rápida, energética e descuidada as escadarias da estação Jabaquara (um vício que alimento todo dia, visando atrofiar melâncolias e desânimos), deixo para trás uma ponta de inveja da poesia de Confúcio e da cultura Haikai. Estes malditos “verborrágicos”!

(Sim! O coiote adora até mesmo a mais patética demonstração de ironia descabida)

Bem, cá estou com meu blog ativado, tentando parecer que não escreverei solilóquios em uma disposição contínua, linear (cruzem os dedos, crianças) e, enquanto procuro por entre uma enxurrada de sketches hippies e desenhos japoneses de qualidade (e gosto) duvidosa a foto que ilustrará esse texto, me peguei pensando em como poderia escrever um post de fato introdutório. Eu, que já fui de muito desdêm quanto a essa poderosa juventude blogueira, decidi, portanto, me desviar de qualquer tipo de cliché. Bem, claro que a introdução em frases extremamente curtas e o léxico culto geral são marcas constantes, mas, diabos! eu sou assim no meu cotidiano.

Seguindo em frente.

Pensei, assim, em não escrever mais um tutorial bem humorado/depressivo sobre a arte de bloguear. Vou é explicitar-me. O lance é o seguinte, meus amigos! como diria Augusto dos Anjos em seus Versos Íntimos:

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

E eu, portanto, cercado por intelectuais de óculos escuro, beatniks de gravata, repentistas verborrágicos (avant-guarde!!) e gatinhas punks, também necessito adaptar-me as feras, montar minha quimera. Oh! mas a que castelos o homem se lança no decorrer de seus infortúnios, e que desgraça é a ele se sua quimera sobrepuja-o, SE A LENDA TE DEVORA O HUMANO! A salvação me pareceu simples, banal!

Objetivando retirar de minha quimera aquilo que é efemero, a falha e o kitsch…

HOJE EU CRIO UM BLOG.

P.S.: Foto de minha autoria.

Passos duros, incalculados e tampouco calculáveis (mesmo porque, convenhamos, eu tenho completa preocupação com uma pessoa que conta seus próprios passos, seus horários e sua agenda tão Kantiana). A cabeça se move de forma similar, ponderando minha natureza de ser itinerante. Eu ando sofrendo sem dúvida de mudanças, um pensamento ainda reiterado pelo gole de um café já morno (Kant se lembra, de seu trono milímetrico, que já passam das 12:00 horas).

A patologia preocupante envolve uma lista demasiado longa de dados: esqueci um bocado de gente, e me lembrei de outro bocado; abocanho um sem-número de poetas e músicos nacionais, minha camisa estampada do “Ride the Lightning!” certamente se desfiando na gaveta, marcada pelo bolor de aforismos prussianos e o blá-blá-blá de um tal Hercule Poirot; ando em uma corrente artística indie, mesclado aos meus traços antes tão confortáveis sob estampas neo-clássicas (oh! não és um exímio esbanjador esse descabelado coiote?).

De volta aos passos.

Abro a porta metálica da sacada, deparando-se com minha mãe, jogando tintas sob uma ponte bidimensional, criando aquilo que nós, dois artistas, adoramos admirar como uma ilusão tridimensional. Em uma quarta dimensão, acompanhado pelos pensamentos de outrora, a observo de meus um-e-oitenta-e-pouco metros e digo seco:

HOJE EU CRIO UM BLOG!