Estou a descer na estação Clínicas todo dia pouco antes do almoço e depois dos amantes acordarem de suas voluptuosas rotinas noturnas. Ao menos nas segundas-feiras, que matam os fecundos ares do domingo na cidade, dos cigarros e dos tragos que encobrem a doce bruma das idéias. Os seguintes dias não foram feitos para o amor. São material para cemitérios, penso enquanto cruzo o do Araçã, para pegar um outro ônibus para o emprego.

Logo antes de entrar é meu costume perguntar se a condução passa em frente a Necrópole São Paulo, meu destino final (meu dia é de fato de uma ironia constante). Assim subo uma certa manhã em um ônibus e me preparo para lançar a pergunta quando me deparo com uma mulher. Seu rosto apenas uma parte do que já foi, uma fina fenda bipartida no lugar do nariz e as maças do rosto rochosas e pálidas. Questionei, de frente àquele sorriso perpétuo e indiferente, liberto da prisão semântica dos lábios, o mau agouro de fazer a velha questão de sempre e decidi tomar o ônibus para onde quer que ele fosse.

Me peguei pensando em quanta coisa me faz deixar de sair de casa e no pequeno vício que uma tal garotinha me provoca (diria que devido sua natureza benéfica a longo prazo e os danos a curto prazo, seria mesmo um contrário da ascepção tradicional, talvez mesmo um anti-vício). Anti-vício ou não, pensei que os danos, por maiores que sejam, jamais deveriam subjulgar a vontade de viver. O semblante esquelético da segunda jamais deve afundar a pulsante vida surgida do ventre dos domingos.

Hoje novos integrantes chegaram no escritório, e o clima é sempre bem divertido quando temos gente nova. Eram umas 14:00 da tarde quando eles decidiram se lançar na aventura de pedir o almoço (uma arte que se assemelha em muitos pontos às caças ancestrais). Cheguei perto, menos para dar uma ajuda do que para relembrar o número em si – vejam que eu não me dou bem com papeizinhos post-it e vivo perdendo telefones. Estava anotando o número quando decidi perguntar o que eles faziam da vida. Descobri, assim, uma analista de sitemas iniciante e um estagiário de TI. Ao rebaterem a pergunta, e ouvirem que eu sou jornalista, seus olhares se dirigiram a mim de uma forma meio… inesperada. Parecia que estávamos numa fogueira de acampamento e que eu acabara de chegar no clímax sanguinolento dalguma estória de horror, enquanto os garotos esperavam ansiosos. Ia contar talvez a estória do Consul indiano, mas ao invés disso peguei o papel, rabisquei o endereço e disse: “Aqui está! Olha só, não esqueçam de teclar zero antes do número.” virei as costas e voltei ao trabalho.