Sair de casa às 19:00, com o céu carbonizado de cinza e umidade é quase como um thriller. As árvores ainda em flor, tão típicas do início do verão, despejam pesadas pétalas que, para o olhar incerto, se assemelham a gotas desajeitadas. Nossa! Que aguaceiro! Erro novamente: é sim a mulher do outro lado da rua regando o jardim escasso com seus shorts juvenis. Ora, todo bom filme de terror tem que ter suas exuberâncias femininas. Assim também, todo bom thriller tem que construir o suspense e a tensão até níveis insuportáveis, deixando a visão da criatura ou do assassino para o final do terceiro ato e, consequentemente, do filme. Assim também me ocorreu, e assim como procede com o perturbado herói da película, o monstro líquido me dá um misto de assombro e solidariedade, e portanto corro para a senhora lá na frente . “Quer ajuda?”, pergunto com estranha calma (como a calculista atitude dos quase abstratos protagonistas). “Não, meu filho! Eu moro longe” e com um gesto, afastou meu guarda-chuva, negro como o corvo de Morfeu. Bem, não imagino que eu tenha o direito de negar a uma idosa alguma ânsia aventureira e, além do quê, o meu escasso tempo me obriga a correr para o conservatório. Tudo bem, precisava de um pouco de movimento no meu dia. Let’s split!

A volta me presenteou com um tempo mais seco e um interessante diálogo com um amigo músico e o bandolim. Bandolins não falam, mas têm histórias, e a deste era ser de um cara que fez de seu ganha-pão algo de que ele gosta. O ritmo acelerado de apresentações e aulas pareceu desprender de sua fala algum tipo de ânimo, e entre os “cacete, tenho que estar em Sampa às nove e porrada” e os “puta loucura” notei a existência de uma cinética que lhe é como uma segunda vida… ou um segundo meio de vivê-la, além das efemérides de um cotidiano comum. Assim como o rapaz que adentra  alguma sala de cinema espera dos sustos a possibilidade de experimentar algum tipo de adrenalina, sem sofrer dela o que se esperaria de uma situação real, meu amigo vive e sofre por seu trabalho, cuja propria natureza evita, de fato, demasiadas dores.

Não imaginem, claro, que esse homem não sofra. Todos sofremos, em maior ou menor grau e em uma miríade de formas. Afinal, como ia dizendo, sair de casa às 19:00, com um céu carbonizado de cinza e umidade…

Toda essa questão sobre a memória me faz crer que um homem jamais deve viver sem seus castelos, e me deixa, assim, em algum tipo de paz interna com minha quimera. Enquanto tomava mais um gole de café na cozinha, minha mão se desvinculava da caneca rubra e esbarrava no power de algum televisor. No equívoco, fui recebido pela fábula triste (entretanto fantasiada com aspas felizes e músicas agitadas) de algumas garotas de um núcleo elitizado da capital do Rio de Janeiro. A apresentadora as acompanhava a um banho de loja e as pobres garotas (de nove a onze anos) esbanjavam preocupações sobre linhas de seda ou o caimento de t-shirts de algodão, com um timbre moderno que deixaria Yves Saint-Lourant inquieto.

Não consegui acompanhar muito mais daquilo. Não apenas por ser alguma espécie de bruto machista ou coisa que valha, mas por pura questão de pena: o que será da felicidade dessas meninas no futuro, que tipo de pessoas serão? As cabeças vinculadas a valores de capital utilitários, as preocupações com o puramente concreto, com o que é visto sem ser observado. Imannuel Kant, por mais chato que fosse, já deixava claro a diferença entre o real e a compreensão do real, onde, imagino, se manifesta o lúdico, a fantasia. Fantasia essa proveniente não só de um conjuntinho fashion, mas de peças de montar, videogames 8-bit, livros, miniaturas, bonecos e bonecas e arlequins saltitantes, cachorrinhos de madeira empurrados por engenhocas de molas e fios, tudo aquilo que incitou nossa infância e nos remete a nossas primaveras e que, finalmente, nos possibilita driblar as dificuldades do puramente concreto.

Não incito nínguem aqui a alienação, mas gostaria de pensar que possamos ter um apreensão mais ampla do que nos cerca e de nossa própria imagem através de um pensamento disposto à criatividade lúdica e à curiosidade, ministrado por estes professores de armaduras negras, chapéus de asa de corvo e metais imantados.

“Rolling Stones – You Can’t Always Get What You Want”

É engraçado como novas descobertas musicais transformam nosso sangue em pura semântica, nos levando a ter aquela maldita vontade de mergulhar em nós mesmos por alguns instantes. Ó ato famigerado, se aventurar pela selva do eu é se perder sob a escuridão do ego. Mas, enfim, pelo propósito desse blog, achei que seria uma experiência positiva em desmantelar-me de minha quimera.

Pois bem. Há algumas boas semanas atrás fui procurado por um conviva meu, que me exigia que o ensinasse a ser mais culto, mais intelectual. Ora, se esse egocêntrico coiote não se sentiu em uma nobre cruzada desde então. Mas o que poderia ser eu senão um mediador a essa pobre alma, questionou morfeu enquanto eu meditava acordado. Pois um mediador serei! Afinal, nada mais sou senão um caipira que, dado aos caprichos da senhora sorte, tropeçou em alguns Sartres e Baudelaires e resolveu, daquele dia em diante, escrever e falar em léxicos complicados e inconclusivos.

Estava logo sob essa reflexão ontem de tarde quando fui surpreendido pelo som de carros de campanha eleitoral. Que discursos aqueles! Talvez os senhores engravatados que estampam as portas laterias se sentiriam um pouco menos culpados dizendo não “A esperança com Alex Manente”, mas sim “A esperança de Alex Manente”. As necessidades de votos e números para o candidato, em sua voz, se transformam em promessas ao povo, por vezes faraônicas em seu âmbito. Esperança…. ha!

Descanse em paz, Richard Wright!!! Estás em um lugar melhor…

“Pink Floyd – On the Turning Away”

Bem, cá estou com meu blog ativado, tentando parecer que não escreverei solilóquios em uma disposição contínua, linear (cruzem os dedos, crianças) e, enquanto procuro por entre uma enxurrada de sketches hippies e desenhos japoneses de qualidade (e gosto) duvidosa a foto que ilustrará esse texto, me peguei pensando em como poderia escrever um post de fato introdutório. Eu, que já fui de muito desdêm quanto a essa poderosa juventude blogueira, decidi, portanto, me desviar de qualquer tipo de cliché. Bem, claro que a introdução em frases extremamente curtas e o léxico culto geral são marcas constantes, mas, diabos! eu sou assim no meu cotidiano.

Seguindo em frente.

Pensei, assim, em não escrever mais um tutorial bem humorado/depressivo sobre a arte de bloguear. Vou é explicitar-me. O lance é o seguinte, meus amigos! como diria Augusto dos Anjos em seus Versos Íntimos:

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

E eu, portanto, cercado por intelectuais de óculos escuro, beatniks de gravata, repentistas verborrágicos (avant-guarde!!) e gatinhas punks, também necessito adaptar-me as feras, montar minha quimera. Oh! mas a que castelos o homem se lança no decorrer de seus infortúnios, e que desgraça é a ele se sua quimera sobrepuja-o, SE A LENDA TE DEVORA O HUMANO! A salvação me pareceu simples, banal!

Objetivando retirar de minha quimera aquilo que é efemero, a falha e o kitsch…

HOJE EU CRIO UM BLOG.

P.S.: Foto de minha autoria.

Passos duros, incalculados e tampouco calculáveis (mesmo porque, convenhamos, eu tenho completa preocupação com uma pessoa que conta seus próprios passos, seus horários e sua agenda tão Kantiana). A cabeça se move de forma similar, ponderando minha natureza de ser itinerante. Eu ando sofrendo sem dúvida de mudanças, um pensamento ainda reiterado pelo gole de um café já morno (Kant se lembra, de seu trono milímetrico, que já passam das 12:00 horas).

A patologia preocupante envolve uma lista demasiado longa de dados: esqueci um bocado de gente, e me lembrei de outro bocado; abocanho um sem-número de poetas e músicos nacionais, minha camisa estampada do “Ride the Lightning!” certamente se desfiando na gaveta, marcada pelo bolor de aforismos prussianos e o blá-blá-blá de um tal Hercule Poirot; ando em uma corrente artística indie, mesclado aos meus traços antes tão confortáveis sob estampas neo-clássicas (oh! não és um exímio esbanjador esse descabelado coiote?).

De volta aos passos.

Abro a porta metálica da sacada, deparando-se com minha mãe, jogando tintas sob uma ponte bidimensional, criando aquilo que nós, dois artistas, adoramos admirar como uma ilusão tridimensional. Em uma quarta dimensão, acompanhado pelos pensamentos de outrora, a observo de meus um-e-oitenta-e-pouco metros e digo seco:

HOJE EU CRIO UM BLOG!