(O texto abaixo não é uma análise profissional de Ikaruga, nem uma indicação contra ou a favor de comprá-lo, é só algo… uma coisa, que por ventura, é em parte Ikagura, uma vez que o amo com uma intensidade reservada aos meus mais queridos livros e filmes – e, no processo, se tornou parte do que sou (é, um shooter de navinha é parte do que eu sou, e é, eu estou usando parênteses dentro de outro parênteses). No geral é isso, algo sobre algo que amo, e que espero que toque de alguma maneira em vocês)

Em seu romance Do que falo quando eu falo de corrida, publicado no Brasil em 2010, Haruki Murakami lembra um interessante pensamento do escritor inglês William Somerset Maugham. Maugham certa vez disse que cada vez que se faz a barba, uma filosofia surge. Não imagino que rostos bem asseados sejam sinal de qualquer gênero de genialidade, e nem é esse o propósito. O que Maugham diz é um fenômento comum às pequenas coisas. Às vezes, atravessando a estação e ouvindo alguém arriscar algumas notas no piano disposto no meio da passarela, juro ouvir uma canção conhecida, mesmo que os lás e fás estejam escondidos em um mar de trítonos. Meu pai, por sua vez, deve se manter reservado à respeito das raras vezes em que alguma correia ou engrenagem da fábrica automotiva onde trabalha, como que por mágica, produz um lamento suave que lembra algo de profundamente humano, retendo-o a mais uma dessas pequenas felicidades individuais.

O que eu ou meu pai, – ou mesmo Maugham – presenciamos não é nada de mágico. Nossa mente condiciona todo ato repetitivo a ser elaborado e produzido de maneira automática, o que abre lacunas a serem preenchidas pelo que sobra de nossa imaginação. Com suas regras delineadas e padrões bem definidos, o que o piloto do game Ikaruga tem pela frente é um obstáculo automatizável. O input motor do jogador é mínimo (se você movimenta a alavanca ao máximo de sua capacidade, você está jogando errado), e pouco a pouco, o movimento da Ikaruga, os inimigos cada vez mais absurdos e aquele céu eternamente preso em um fantasmagórico crepúsculo desaparecem, e você descobre que o buraco deixado pelo complexo padrão de disparos de energia passa lentamente a ser preenchido por pensamentos, lembranças e preocupações, às vezes seus, às vezes da própria equipe de desenvolvimento, às vezes uma mescla de ambos. Se estou triste, por exemplo, penso sobre estar triste. Se estou na área 4, penso sobre a área 4. Se está quente, penso sobre coisas frias. E em algum momento peculiarmente estranho, me pego imaginando que música o cara responsável pelo level design estava escutando (e aí me lembro de um excelente CD de arranjos para koto que um amigo me emprestou, um tesouro de sua mulher, natural de alguma província japonesa).

Mas se regras bem definidas e input físico mínimo fossem o necessário para me acordar estas funções cerebrais, Tetris também surtiria o mesmo efeito. Mas Ikaruga tem algo a mais: diferente de outros jogos de seu gênero, Ikaruga é desenhado para que você seja, em diversos momentos, alvejado por fogo inimigo. Isso por que a nave é capaz de transitar entre dois pólos (claro e escuro) e absorver sem dano nenhum disparos da mesma polaridade. Isso abre espaços para um novo set de regras: 1) tiros de polaridade diversa são seus verdadeiros inimigos; 2) você pode escolher seu próprio caminho pelo inferno de fogo; 3) seus tiros também tem polaridades, e isso afeta de maneira quase similar seus inimigos (que são mais fortes contra tiros de mesma cor e fracos contra disparos de cor oposta). Em resumo, diferente de muitos outros do seu gênero, Ikaruga apresenta um design mais aberto à experimentação. O game da Treasure, assim, não é mais apenas sobre encontrar e preencher lacunas (como, basicamente, todo jogo de nave é), mas criá-las você mesmo dentro dos limites impostos pelo jogo. E isso não poderia servir como uma metáfora mais do que digna para (o que considero ser) o ato de lembrar. É nessa similaridade que a justaposição entre o jogo e mente funciona. E, assim, jogar Ikaruga é bem próximo de… simplesmente ser. Se é que isso faz sentido.

A ideia por trás de Ikaruga foi o que moveu boa parte do seu gênero enquanto a Capcom, a SNK e a Taito ainda compravam briga nos fliperamas com jogos bem mais energéticos e abertos à interação social no final dos anos 90. Jogos de navinha eram relegados aos solitários em cantos escuros dos fliperamas, uma relíquia dos tempos mais reservados da juventude japonesa, o que talvez tenha motivado desenvolvedores a criarem jogos mais e mais difíceis, para dar aos jogadores uma razão concreta para voltar insistentemente. A também japonesa Cave foi uma das poucas desenvolvedoras a insistir no gênero desde que a Treasure fechou as portas, e seu Spigalurda, apesar do nome estranho, é um dos mais populares shooters da atualidade. O jogo é uma insistente bateria de testes do tipo “enfie a linha na agulha” disfarçada de tiroteio sci-fi, e apresentava um sistema que permitia ao jogador transformar disparos inimigos em moedas – claramente inspirado nos avanços que a Treasure propôs com Ikaruga. Mas, apesar de excelente, toda a fixação com dinheiro (do jogo aos próprios produtores) acabou roubando a alma do gênero.

Ikaruga é simples. Tão simples que é até um pouco ridículo. Mas não é essa sua única qualidade. Ikaruga tem ritmo, de tal maneira preciso e sensível que, se alguém transformasse o jogo em música (não duvide: ainda é possível exportar fases criadas no jogo “Bangai-O: Spirits” de um Nintendo DS ao outro através de um arquivo MP3 – o que, em resumo, significa que é possível ouví-la. A tecnologia já está aí) é bem capaz que o resultado seria algo de um movimento de Brahms. O jogo é consistentemente difícil em todas suas cinco fases, cada uma apresentando espécies de desafios novas e um vilão final (como pequenos staccatos na melodia geral). O quinto e último estágio é o mais curto e portanto o mais veloz, e termina com um chefe cuja terceira forma exige um nível de concentração e reflexo improváveis: transformado em uma esfera gigante, o vilão transita entre duas polaridades, lançando um barragem de destruição indefensável. A estratégia é absorver o impacto, usar a energia para atirar de volta e evitar balas perdidas voando pelo cenário. O inimigo aumenta o ritmo sem cessar, em um ponto em que o intervalo de mudança de polaridade passa a valer menos que um segundo. É insano. No final, o jogo te presenteia com um confronto contra uma máquina invencível, e te desafia a superar os mais crúeis padrões de disparos que o jogo pode oferecer pelos 2 minutos mais longos de sua vida. E nada disso parece apelativo como é o caso com Spigalurda ou DonDonPachi. É como uma maratona, vê? Os último quilômetros são sempre os mais difíceis, e são sempre onde você aplica toda força e toda musculatura no sentido da linha de chegada. Acontece que Ikaruga também quer a glória, e seu esforço em impedir seu avanço nos últimos minutos é legítimo e desesperadamente honesto.

A comparação entre música clássica e Ikaruga não para na intensidade de seus últimos momentos. Como qualquer boa música, a ação de Ikaruga é o maior atrativo, mas são os intervalos que irão te fazer ficar. Há esse momento particularmente genial da terceira fase em que a nave percorre um corredor apertado enquanto duas formações inimigas avançam para encurralar o jogador. Observação prova que a única maneira de sobreviver é negociar espaço entre as naves que atacam pelas costas enquanto atira contra a esquadra que vem pela frente. É um balé intrincado e preciso, mas também uma maneira bastante engenhosa de demonstrar qual o exato tamanho da espaçonave. E uma vez aprendida esta lição (uma baita descoberta pessoal no contexto “atire e desvie ad nauseum” de Ikaruga), você começa a ver que há algum espaço utilizável entre as rajadas de tiro, pequenas veias entre as artérias, fissuras na armadura fosforescente de Ikaruga.

Alguém, em algum lugar e de alguma maneira, certa vez disse que a luta que você trava agora é a que você travará até seu último suspiro. Uma de minhas metas para este ano é começar a correr. Correr de verdade. É algo que mantenho no fundo de minha mente como mais um objetivo, e por mais mundano que seja – ao menos tão mundano quanto uma partida de Ikaruga – a verdade é que é uma maneira de me chocar contra mim mesmo. Músculos doem, sais minerais são gastos e repostos e, em alguma altura desta fricção entre tecidos, líquidos, ossos, asfalto e tempo, se esconde uma pequena fagulha de magia motora, o pequeno instinto primitivo de sobrevivência dizendo entre dentes que este lance de morte e de frustração talvez seja algo supervalorizado. Morte é algo que está sempre na minha cabeça quando eu corro, embora isso me faça pensar que possa desenvolver meu corpo e mente de tal maneira que eu possa simplesmente deixar isso tudo fluir. Eu jamais consegui cobrir mais que 2km em um pique constante. De igual maneira, eu nunca consegui terminar Ikaruga em uma só ficha, sem Continues. Mas o esforço está lá, mesmo que isso não deixe de acordar algo de triste.

Apesar das cores e da ação, há algo de melancólico ocorrendo no cerne de Ikaruga. A trilha sonora é em iguais partes, pesarosa e dignificante, os esforços do império Horai crescem tanto em tamanho quanto em desespero, enquanto sua fé no Ubusunagami Okinokai (o Poder de Deus) se prova incapaz de derrotar a engenhosidade campestre por trás da engenharia da Ikaruga. Finalmente, nave e piloto se sacrificam no golpe final contra o império. E não importa quantos créditos você use, quantas vezes você jogue, ou mesmo se você se esforce para alcançar toda uma partida sem morrer. A Ikaruga ainda estará lá, no corredor final, sistemas elétricos e mecânicos eriçados como o pêlo de um gato acuado, se expandindo em uma explosão Technicolor na tentativa derradeira de matar Deus.

A verdade com os videogames é um pouco similar com a da vida: eles não duram para sempre. Pac-Man, por exemplo, é uma série de estágios, um teste de resistência aparentemente infindável, mas não existe nada jogável para além do nível 256. O contador de fases do game é composto por um único pixel 8-bit, e como a memória da época permitia apenas 256 valores distintos para um pixel, a fase 256 é apenas um grande erro computacional. Em GTA III, você pode continuar bombardeando pessoas de faz-de-conta o quanto quiser, mas depois da última missão, não há ninguém em toda a cidade que precise de você, ou que te dirija mais que uma linha de diálogo (muitas das quais, piadas repetidas). Em Ikaruga, seu inimigo foi abatido, sua nave, pulverizada. E aí, é de volta à estaca zero, como sempre é.

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Todas as pessoas vão te dizer que você tem que se organizar na vida, se preparar, se assegurar. Foi parte das preocupações de uma cara amiga minha e algo que me fez parar pra pensar: o ato de viver, pra todos os efeitos, é uma progressão em desorganização. Como bem apontou Mutarelli em seu genial texto “O Astronauta”, vivemos em uma rota que já começou: o que está ali traçado é nossa única ligação com o sólido, o que virá a ser traçado naturalmente desvirtuará o que irá passar, de uma maneira ou de outra. Nada é uma mera linha reta, já diria a física contemporânea. O que aconteceu na semana passada é uma narrativa linear, cheio de fatos cuja única obscuridade vem do fato de você lembrar ou não lembrar, porque eles estão lá de fato, intocáveis em sua concretude. O que acontecer de agora em diante (“agora”, que palavra fugidia esta) está passível de toda sorte de desvios e contratempos. O porvir é, em sua natureza, desorganizado. Líquido, se me permitir uma liberdade semântica. E aqui estamos, o homem moderno adorador da imagem, das fotos que fazem tudo parecer atemporal, como tivesse sido colocado lá por Apolo desde os tempos mais remotos, ou antes disso. E um leve ressoar em nossa mente, que nos instiga a revisitar sensações já passadas, ignorando com ar de criança que, meu caro, “os tempos são outros”. Desde há um milésimo de segundo. Desorganizado.

Encarando essa verdade, há duas saídas possíveis (foi o que o blues de domingo á noite me deixou raciocinar, dê-me um desconto). A primeira é colecionar e se agarrar aos bons momentos passados como se fossem jóias – suas preciosidades apenas artifício de um sistema – para depois se sufocar com elas no eterno dissipar das coisas. Cada um escolhe seu veneno. Pessoalmente o meu escolhido é a segunda saída: sabendo que o que é agora já se foi, irremediavelmente, tudo o que sobra é o conflito do porvir. “Amanhã vai ser diferente” por bem ou por mal, e o que me cabe é encarar e dizer entre os dentes: “manda ver!”. Não teria muita graça se não fosse assim. Em última consideração, jamais tema esperar uma segunda chance:o futuro não conhece limites.

Eu deveria escrever um livro de auto-ajuda, Maga, um destes com um título cativante e nenhuma boa nota de rodapé e uma segunda introdução pra cada nova edição e talvez alguma dedicatória babaca a ti. Conseguiria uma grana, bancaria um lugarzinho, uma viagem para a Toscana ou para ver as igrejas de Gaudí em sua etérea companhia. Deixe-me ser irônico por um momento, isso não importa, nunca importou. Mas vem cá: não é engraçado pensar que, de certa forma, esperamos o que já se passou?

“Você vai até São Bernardo?”. A pergunta tirou minha cabeça dos desvaneios de como a maldita noite estava quente, e os meus olhos de um volume de Dubliners, do James Joyce, direto para o rosto de um senhor com um semblante claramente perturbado e com uma bagagem quase que descomunal em seus braços. “Vou… vou sim” respondi. O homem me deixou a par de que precisava de direções para uma das estações do corredor metropolitano, e a sua insistência me pareceu apontar um caso de mente um pouco fraca – o que não é qualquer coisa próxima de ruim no meu caso, ando tão desinteressado em pura sanidade. “Sente aí”, recomendei, “que logo vou te avisar quando chegarmos, pode ficar tranquilo”. O senhor se recostou em um assento logo de costas para o meu e, como se voltasse meus olhos para minha leitura, fiquei pensando se o homem não teria insistido em sua dúvida por mera necessidade de atenção. Conversamos de forma breve, mas não tardou até um grupo barulhento de jovens tomarem assento ao redor do viajante. Tomei aquilo como um adeus improvisado e mal pude evitar um riso irônico quando ele logo deixou a trupe verborrágica ciente da dúvida de seu destinatário. Mas o mais doce foi ver como logo eles estavam conversando sobre comidas caipiras, trocando endereços e se tratando como amigos de longa data, aqueles meros estranhos. Aquela droga de salto geracional tornado inerte.

Aquela explosão de humanidade me tirou por um instante que seja da vileza que sinto vez ou outra tomar rédeas da minha vida: as necessidades de um assalariado – sempre mais -, mas principalmente meus entraves românticos impossíveis. Assisti pela janela a noite passar “and in the darkness, I saw myself as a creature driven and derided by vanity” (frase de um conto de Joyce). E ainda assim de todo aquele visco cruel, havia uma chama dessas que nunca anseiam atear o mundo às brasas. Seu bailar diminuto apenas mostrou uma realidade simples, doce e um pouco desesperadora: minha alma tem uma sombra.

(o trecho é uma paráfrase de um poema beatnik que guardei na memória; ando pouco criativo estes dias).

O desespero, poderosa força motora intrínseca de qualquer experiência de existir. O que me deixa inquieto é que por vezes eu sinto medo. De que tudo vá acabar um dia sem jamais ter começado. De novo. E o medo me deixa surpreso. Mas sabe como é, quando você conversa com alguém e descobre que explorar seus segredos é tanto aprender sobre ela quanto descobrir você mesmo, e que aquilo parece um enebriante carrossel de coincidências, e que o amor é químico e nada mais. É maravilhoso. Mesmo que ligeiramente fársico. Até porque ligeiramente fársico?

Trabalho? Faculdade? Ora, Maga, eles vão bem, mas não dão bom caldo pra histórias. Falta-lhes algo de clímax, de um bom ritmo narrativo. Afinal você se diverte quando eu externalizo, coisa que me deixa quase tão desconfortável quanto ser obtuso, mas necessidades são necessidades, e tudo acaba em boas risadas mesmo. Só porque você está certa, não significa que eu esteja errado, não é?

Mas venha aqui. A nossa música está quase terminando, Maga, que tal dançar um pouco?

Uau, faz um tempão que não atualizo nada aqui – como bem apontou a caríssima Andrea W. e mais outras dezenas de pessoas, possivelmente em maior número do que minha audiência jamais sonhou em alcançar. Mas não tenho negócio nenhum com os “desvaneios” dos números. Deixe a prosa para lá.

Para não dizer que eu não subi nada, decidi colocar na íntegra um texto que escrevi para as aulas de Técnicas de Redação que tenho religiosamente toda sexta na Cásper Líbero. Entre suas mil histórias – algo típico de um professor em sua posição – o sr. Welington uma vez nos disse com seu costumeiro estilo meio teatral demais como todo aluno que tirava oito para cima em suas avaliações acabaram nas redações de Piauís, Caros Amigos e Cartas Capitais. Esse é meu segundo “nota 10” consecutivo.

Nada mais digno senão publicar, certo?

“Sua pele como o milenar calcário, rugosa e ferida de flanco a flanco por um fino e irregular sulco, a imensa árvore se estende para muito além das bordas cinzentas da fotografia, dando à sua fisionomia algo de infinito, imemorial, como uma estátua erguida por titãs. A natureza se faz presente e a abraça com uma densa flora, de folhas, ramos e húmus. É um esforço perdido, e ela compreende em seu cerne um doce fracasso. Resume-se então a coroar o áspero gigante com galhos mil, cuidadosa na circunferência de seu berço descomunal. A coisa toda, lhe pareceu, era um sparring surdo-mudo entre dois pugilistas desiguais: o ‘verde’, que cerca impotente seu adversário, e a árvore, segura de seu lugar, de seu xeque-mate passivo e eternamente incompleto.
A mulher lhe apareceu com sua roupa dominical, o cabelo penteado por igual, curto sob o chapéu branco. Sua pose estática transmitia um pouco de impassividade: as mãos firmes em sua pequena bagagem, os joelhos virados para dentro, o rosto observando qualquer coisa fora da fotografia com um sorriso mal ensaiado. E ainda assim lhe parece que era como se ela estivesse lá o tempo todo. Ela, o vestido dominical, o sorriso fugidio, os joelhos. Plantados como estavam também a fofa relva e a nodosa árvore. Coisas de uma só coisa, prisioneiros do espaço, mas não do tempo. A luz dá a dica: o arranjo preto-e-branco se originou de uma tarde morna, os raios de sol compondo um todo branco a emoldurar suas personagens, não sem sua textura própria. O céu se confunde com as copas e adentra o tronco enorme como um leitoso miasma, cortado aqui e ali pela sombra de outros ramos, que incidem na pele do gigante e servem como único indício de que há todo um mundo para além dos limites da imagem. Isso e o olhar da mulher, mas até aí é a mesma coisa. Diabos! Pensou que, em resumo, não era nada que não lembrasse a borra velha de um café marroquino, cujos signos estão espalhados a olhos vistos, como um Rorscharch nu.”

Fui ao banheiro da estação colocar um pouco de água no rosto, massageando as têmporas  contra as cavidades ósseas de forma repetida e demorada em um gesto muito menos higiênico e muito mais existencial. Sentir o tutano debaixo da pele, a vida pulsante que habita a visão, o mastigar, o palato, firme e forte até na ironia da impossibilidade. Quando tirei do rosto as mãos enrugadas pela água, me surpreendi estranhamente sujo. Não de forma gritante, apenas umas manchas aqui e ali, a barba crescendo molenga onde antes nada germinava, algumas marcas ruborizadas, nada demais. Ainda assim, me lembrava de estar um pouco mais limpo e uniforme até então, uma sensação difícil de se desapegar. A falta de um repertório intelectual digno para me apartar no momento foi de certa forma desconcertante. Talvez se fosse uma mulher, me viria à cabeça um inventário de cremes, loções, Dédalo em pomadas aromatizadas, e uma ou outra dica infalível. Sendo o velho coiote como ele é, me diverti pensando que talvez aquilo fosse muito parecido com uma rua asfaltada logo depois da chuva: a superfície ganhando suaves tons de cerúleo contra a recente luz solar, tornando ainda mais azulada a manhã. Assim também a melhor coisa que podia dizer pro meu reflexo no momento é que há algo de uma nova matiz, de uma nova tonalidade. E da baixeza de meus 21 anos, estou percebendo o tempo, o lento degenerar das coisas, a pequena morte cotidiana que nos faz mais e mais humanos na medida em que ceifa parte de nosso charme e juventude. Em um banheiro de estação.

Mas não posso me dar ao luxo de perder o charme. Isso é se desequipar frente ao meu próprio impossível. De forma instintiva ainda. Esse perder instrumental é um processo lento (talvez a motivação secreta por trás da criação dos tantos samurais cegos, pernetas ou manetas em filmes japoneses) mas dolorosamente contínuo. Para o hoje, o ontem é algo alienígena. O que ficou ontem ficou, e nada disso vai garantir o agora: a humanidade em seu princípio, é de uma intensa atualidade. Colecionar bons momentos, diferente de minhas crenças passadas, é muito próximo a sorver um veneno cuja passagem gera um comichão divertido na garganta, sua efervescência escondendo atrás de si a realidade da passagem do tempo. Maus necessários.

E é por isso que vivemos trocando meios por fins e fins por coisa alguma. No fim das contas, tudo o que apreendemos de nossos erros vem da jornada de repetí-los: eis o berço do sentido. E é essa personificação que terá que bastar agora. Mas talvez eu esteja sendo muito duro, Maga, one old sneaky bastard. Muito duro, e muito pessimista – as suas palavras seriam uma sigla nesse momento. Mas amanhã passa. Há de passar, não é?

Era uma noite chuvosa, e relativamente encoberta pela solidão, coisa de se esperar – pode não parecer, mas sou um cara meio desapegado – e o que rondava minha mente era a ironia de ter que repetir o título Manual da paixão solitária um par de vezes a mais do que esperava para o atendente da livraria. Encomendas são encomendas. Enfim, me lembro de quase precisar fazer cada sílaba sibilar lentamente da minha língua, como quem saboreia um bonito nome feminino ou como um desses senhores que contabilizam por si só lentas lembranças de seu passado, apenas no intuito de fazê-las voltarem à vida.

Hójita, a repetição do nome me pareceu impregná-lo de mim, e me impregnar dele – mais ou menos como um jovem que decora a fórmula de Báskara depois de utilizá-lo ad nauseaum começa a apreendê-lo. Ops, desculpe, espere um pouco Maga…Sim… sim, este mesmo… Paixão solitária! O tipo de coisa, de emoção visceral sentido somente por uma das partes…Ahn?.. ah, ora o que tens na cabeça, não tem nada a ver com platonismo, meu amigo… é mais como amar e não saber bem o quê… ahn… não, não, isso não é pra mim. Quer saber, à merda com tudo isso, deixa isso aí na prateleira que eu vou ficar mesmo com O Senhor dos Anéis.

Estou prolífico no quesito literatura este fim de semana. Bolei toda uma cena de meu projeto, e creio que seria de bom grado lhes apresentar um trechinho sequer. Para contextualizar: este script de HQ está meio que pronto já há alguns meses, e a parte em questão se dá no fim do capítulo, com Huxley, o protagonista, saindo de mais uma missão bizarramente mal terminada. Um carro para em frente ao restaurante e o carrega pela noite.

Para quem se interessar, por favor, adoraria falar mais sobre a coisa toda. Por hora, fiquem com o monólogo da cena.

“Você olha da janela do sedan as luzes da cidade, que queimam em seu estômago como plácido cianureto. Tudo lá fora passa rápido, Rosa, todas as mentiras e a sensação sufocante de que tudo está impossivelmente fora do alcance, da calçada oposta, do clochard ao céu sem estrelas – observação imprópria, há tanta luz. Você para para lembrar do café e das torradas da manhã anterior, do silêncio, diálogo de Kaspar Hauser, aquilo que te mantém são, por um momento que for. O telefone celular está desligado, e uma ânsia lhe atravessa, alguém para lhe botar as mão na lapela do casaco e dizer algum impropério suave.

As luzes, a dança em Technicolor – certamente um continuum Tango argentino – soam como sombras neón da caverna de Platão. De tal forma que, quando os sons voltam a ti, sua própria voz se assemelha ao latir de um cachorro vira-lata. Você pede às pressas que o motorista pare o veículo lá mesmo, sem quase supor que é esta sua vontade. Sua cabeça lateja, e tudo o que você mais quer é o fim do passeio.

Rosa, as luzes da noite são tão lindas. Você precisa ver.”